como plumas

Month: Março, 2012

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nascer no Cairo, ser fêmea de cupim – Rubem Braga

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?

O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.

Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.

Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não entristecer o homem.

Espero que uma velhice tranqüila – no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).

Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua”. Mas acho que isso é exagero.

Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.

Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.

Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da “Última Hora” ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de “O Globo?”.

No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.

Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!

Rio, novembro, 1951


Texto extraído do livro “Ai de Ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.

 

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Hoje o dia está tão lindo, por que não?

um filme – Bande à part (1964)

Ontem estava em Sorocaba e aconteceu uma cena muito parecida com essa, bem, talvez nada parecida, mas aconteceu que precisava correr pra pegar o ônibus e no meio da correria lembrei do filme. Kiko e eu fazendo parte de uma cena do filme de Godard. Ou pelo menos pareceu.

Lisbon 2011 - by Nancy Wilde

Lisbon 2011 – by Nancy Wilde

vai e volta

Ontem estava passeando pelos blogs da vida. Estava mesmo era tentando ler sobre a tão conhecida (e linda!) Twiggy. Uma figura ULTRA importante da moda, até porque, é considerada a primeira top model do mundo.  Magérrima, pequena, com cabelos loiros muito curtos e imensos olhos realçados com camadas de rímel e cílios postiços, tornaram Twiggy o ícone dos anos 60.

Bem, mas o que me chamou atenção foi essa imagem

E você me pergunta, “por quê, Renata?”

E eu digo: “os sapatos!”

Os sapatos hoje conhecidos como Slippers, é um dos itens de sonho de consumo de várias pessoas (inclusive eu!). Mas vemos que eles existiram por volta da década de 50/60, não?

Pensando nisso, descobri que esses sapatos, que vieram do guarda roupa masculino (como os lindos oxfords) é super tendência do inverno-2012! Ok, isso todos sabiam, mas a minha surpresa é por eles não serem nada “novos” ou “novidade”, até porque eles vieram “direto do século XIV” e “este sapato é uma releitura das pantufas usadas pela realeza britânica naquela época.” No entanto, hoje (re)criaram os Slippers como uma alternativa as sapatilhas com “ares mais despojados em modelos lisos, estampados em animal print, étnico ou até com uma pegada mais rocker, com tachas.” (basicomoda)

Reparem em como eles realmente parecem com os usados pela Twiggy na imagem.

Para as pessoas que não gostam dos gliters, brilhos e tal, tem outras opções

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E para quem preferir o animal print

Os dois últimos da marca Boteiro

A minha surpresa de ter encontrado o sapato que mais quero nesses tempos nos pés de uma modelo como a Twiggy, foi gigantesca. Serviu pra aumentar ainda mais minha vontade.

fernando pessoa

curta, curtinho.

E hoje, como tenho um banho de chuva e frio me esperando as 17:45 h, vamos de curta pra tentar melhorar o ânimo. Esse curta, MARAVILHOSO, descobri alguns anos atrás no ohpera blog. Bottle, feito por Kirsten Lepore, é a história de um floquinho de neve e um montinho de areia que se apaixonam. Assistam:

Quem puder, confira os outros curtas da Kirsten nesse canal. É legal ver o Making of “Bottle”  também!

paredes

Faz algns dias que estava tentando arrumar um tempinho pra vir aqui falar sobre algo que achei interessante. Ainda continuo sem tempo, mas quem é que tem?

Domingo passado assisti o filme Precisamos falar sobre Kevin. Um filme que impressionou, surpreendeu e perturbou MUITO. Um tipo de filme que quando assistimos, pensamos: “super indicaria!”. (só não entendi ainda o porque nem foi ao menos mencionado pela Academia)

No entanto, não é sobre isso que eu estou pensando em falar, mas sim, sobre um detalhe que aparece numa cena muito emblemática. Eva (mãe de Kevin, interpretada por Tilda Swinton), uma escritora-viajante,  decora a parede do quarto da nova casa da família com alguns mapas e artigos adquiridos em viagens (suponho), e notando o interesse do filho se oferece pra ajudá-lo caso queira deixar seu quarto com sua cara, com sua personalidade, assim, o garoto questiona ‘qual personalidade?’.

Os mapas não estão nítidos nas imagens porque com alguns minutos de descuido, o filho resolve “ajudar” a mãe na decoração do quarto (e não encontrei imagens do ‘antes’)

Me interessei pela forma usada por Eva para a decoração. Acho que em alguma outra vida, fui uma espécie de viajante, até porque, se eu pudesse, viveria na estrada com uma mochila nas costas, água e algum dinheiro pra comida. Com isso, procurei algumas imagens que mostrassem essa ‘ideia’ da personagem.

No filme, as paredes são totalmente cobertas, aqui, mostra que também é possível usar como “quadro”

E como no filme, há a possíbilidade de por objetos para enfeitar e completar o ‘cenário’ criado.

Além dos mapas, é interessante perceber as outras paredes que o filme nos apresenta (não apenas as paredes, até porque o filme é permeado de detalhes).  Um exemplo disso, é o próprio quarto do garoto, que de paredes brancas e com poucos móveis, nos deixa buscando detalhes do que poderiamos ter a partir da decoração do quarto. Até porque, seria interessante responder a pergunta “que personalidade?” feita pelo menino.

No decorrer do filme, isso vai se tornando parte do cenário e realmente encanta.

Sei que não é parede mas adorei o efeito das latinhas vermelhas.

E por fim, talvez uma das mais fortes do filme, a decorada pelos vizinhos.

Contudo, o que quis dizer com esse post? Quis dizer, com base no filme, que algo simples como ‘paredes’ podem sim nos representar. Em cada situação, em cada fase da nossa vida. Até porque, estamos em constante construção e aprimoramento do ‘nós’ como pessoas. Além disso, com alguma criatividade, é possível mudar um ambiente com itens que estão ao alcance e que às vezes é ignorado ou esquecido.

Então, fica a dica. Pra vocês e pra mim!

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