Karen, Kelen ou você mesmo.

Karen (ou kelen, ou você mesmo) costuma falar sozinha, além disso, sonha sozinha também. Ela não sabe dançar, mas às vezes finge bem.  Ela dança sozinha, como sonha e fala. Um dia, dançava APESAR DE VOCÊ AMANHÃ HÁ DE SERRRRRR OUTRO DIA e um moço a cutucou “- moça você está bem? – sim… – mas você está dançando… sozinha… – e você não está rindo disso. Ria.” Gosta de música indie e não entende muito bem o que isso quer dizer, se é que quer dizer algo. Não escreve muito, apesar de ter um calo no dedo. Não lê muito, apesar de usar óculos. Nada nunca é suficiente, na verdade. Não entende de Godard, não faz medicina e não fala alemão. Foi dançarina de balcão, recepcionista de posto de saúde, frentista, entregadora de jornal e vendedora de calçados. Entende de marca de calçados e sabe reconhecer e diferenciar um all star autêntico. Para ela, todos os homens usariam all star. Limpo ou sujo. All Star. E mulheres estariam sempre de havaianas, ou moleca de vó. Por que não? Ela nunca soube usar salto mesmo. Gosta mesmo é de coturnos para não parecer feminina. Ela feminina? Nem combina! Desastrada e derruba tudo mesmo. Tem como ser delicada? Não, não tem. Confunde nomes: Juracir pode ser Jurandir, Jundiaí, Jura, Juarez. Marçal pode ser Marcelo, Marciel, Macio, Maurício… E, ainda, tem o R retrocesso que faz com que ela não consiga falar A-M-O-R-T-E-C-E-D-O-R.

Não é “intelectual”. Não gosta (ou não sabe se gosta) do Bandeira, do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. Não sabe falar sobre o Planalto Central, nem de magia ou meditação. Tem é medo de espíritos. Faz duas semanas que dorme com os pais porque tem medo do vô que morreu. Ele vem pedir sua bengala pra ela. Mas como entregar, meu deus? Já está tudo encaixotado! Só sabe de uma coisa, a casa é assombrada mesmo. Só o quarto dos pais que não. É uma pseudo-suícida. Daquelas que se identificam com o Harold do “ensina-me a viver” e detesta a Maude por “ensinar que a vida é legal”. Mas como diz Woody, “e se for verdade que Deus não existe e só se vive uma vez? Não quer viver essa experiência? Não é tão chato assim…” e talvez, apesar do talvez ser uma linha muito tênue pra se apoiar, talvez ele tenha razão. Karen ama as palavras, não frases, mas as palavras e seus significados. Desde sempre leu dicionários. Nunca decorou todas as palavras e suas atribuições, mas sempre achou divertido saber que existem palavras pra tudo o que quer dizer. Tudo! Isso não é mágico?

Mágico é seu dente do ciso nascendo.

A menina gosta de participar de eventos acadêmicos pra ganhar bolsas, por isso, sempre está com bolsas feias. Usa meias roxas e a maioria das pessoas olham ela passar, não por ser bonita, longe disso, mas por ser estranha e ter um nariz torto. Um nariz italiano, mas torto.

É vazia – so empty. Gosta de expressões inglesas. Ama o espanhol e não entende coisa nenhuma do francês. Só sabe o nome do rio que passa por Paris. Karen (ou kelen, ou você mesmo) tem mãos pequenas. “[…] ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas […]”

Não entende de amor, nunca ninguém ensinou nada sobre isso pra ela. Acha que amor, o bom amor mesmo, é soltar puns na cama. Antes, a ausência de sentimento a incomodava. Hoje, ela aprendeu a conviver com a frieza (ou falta de ternura) que recebe. É comum, ela pensa. Somos todos apenas pedaços de carne pendurados. Somos bocas, somos bundas, somos coxas, não é? Não? Pensando assim, Cheiro do Ralo faz muito sentido. Todos os homens são apaixonados por pedaços, como no filme, uma bunda. Ainda pensando assim, Onorato – ou Alecrim, que frita a bunda da mulher pra comer, em Estômago, faz MUITO sentido, não é? O que Karen é? O que são todos? Tem tanta palavra no dicionário, mas quem descreve isso? Ninguém.

Nobody. Did you try? Did you want to try? No? You can’t.

A garota ouviu ontem, que para se apaixonar, para que alguém se envolva de verdade, a sério, a outra pessoa tem que valer a pena. Não sabe o que acha disso, só sabe que não concorda. A vida tende a ser irônica, quase sempre, pelo menos. E que a pessoa que vale a pena, nem sempre é a que interessa. Quem aguentaria passar tempo perto de alguém tão bom e perfeito? E os puns na cama, onde ficam? As métricas nem sempre são interessantes. Mas ok. Levando em conta que todos esperam a pessoa que “valha a pena”, quem vai achar que ela vale? Quem vai acreditar? O que analisam? O que é levado em consideração? O que vale a pena pra um, nem sempre vale pra todo mundo. Se todos se apaixonassem pelo menino tímido da biblioteca, que lê superinteressante e usa all star, as coisas estariam difíceis pra todas as Karen. Ou Kelen. Ou você mesmo. É melhor pensar que tudo é um puto dum caledoscópio, que gira, gira, gira… E que é todo mundo engolido por ele. Pelas sombras, pelas pessoas, todos engolidos por essa… roda viva que carrega o destino pra lá.

 Karen não é ninguém.

É só uma personagem…

Ou não, mas quem sabe?

Adeus, Jurandir, sua cidade é longe demais pra eu achar que você valha a pena..

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