como plumas

Month: Agosto, 2015

Roteirize

Não tenho entusiasmo, não sou poesia. Isso deveria me incomodar, mas não incomoda. Gosto de quem sou, quem me tornei. Com o tempo aprendi a gostar. Como desgostar se sempre serei minha companhia. Vejo que um dia estarei sentada, no café de sempre, bebendo o suco de sempre, fumando o cigarro de sempre e sozinha como sempre. Isso deveria me incomodar, mas não me incomoda. Não penso nisso como algo ruim. Sou chata. Por dentro, só tenho órgãos. Sinto que vivo em um filme, só não decidi ainda qual seria o diretor. Almodóvar, Lars, Godard, ou… A minha única exigência é poder escolher o figurino. Me vestiria como a Summer ou/e personagens semelhantes a ela. Teria desfechos semelhantes ou teria desfechos inconclusos, porque eu sou assim: pura falta de fim. Isso deveria me incomodar, mas eu deixo para lá.

A deriva

Uma amiga sempre me diz: escreva, sua tristeza passará. Um amigo, por sua vez, sempre me diz: não se exponha e pare de roer unhas, você faz isso com muita frequência. Já outra amiga sempre me diz: vomite, escove os dentes e fique limpa.

Não tenho como contestar, já que todos eles têm razão. Tenho grandes amigos e eles me conhecem bem, pelo visto. No entanto, apesar de todos os conselhos e instruções de como me manter a deriva (ou respirando), eu ainda não sei qual é o segredo para a sanidade. Ainda não sei quando escrever, não me expor ou vomitar fará todas as angústias e adeuses e vazios e esperas saírem para fora de mim. Parece um parto, mas não é. É só a busca pelo desapego do que acumulei durante meu grande e velho percurso de vida.

Costumo escrever? Não costumo. Infinitas pessoas já fizeram isso antes de mim, infinitamente melhor. Infinitas pessoas continuarão escrevendo depois de mim e também serão melhores. Apesar disso, por que justo hoje estou tentando?

É tédio? Não é, porque, mesmo que a vida não tenha sido tão generosa, o tédio não tem me encontrado com muita frequência. Penso que minha mente é como milhares de redes que se conectam e funcionam mesmo quando eu quero só dormir. Então, caso o marasmo apareça, meu cérebro me mantem ocupada. É preocupação? Um pouco. Milhões de coisas passam por mim e me causam dor no estômago. Talvez quem me olha, mas não observa, pensa que sou serena. Não sou serena. Sou um amontoado de conflitos e dilemas e divagações e medos que me fazem perder o sono e, em algumas vezes, a vontade de tentar seguindo. Isso pode ser assunto para um outro dia, até porque, preciso chegar no tópico que quero. É a falta? Talvez, pode ser, quem sabe? Sinto mais falta de pessoas objetos animais tempos passados chocolates que comi bebidas que bebi lugares que visitei do que sou capaz de mencionar.

Hoje, em específico, após ouvir uma música do Oasis no rádio, ao voltar de uma conversa pesada com um amigo querido, lembrei de várias situações que já passei com essa trilha sonora. Teve aquela vez, por exemplo, que beijei o menino desconhecido, da cidade desconhecida, no palco do bar desconhecido. Beijei, entrei numa nave espacial, que algumas pessoas chamam de carro, e tive uma noite surpreendente. Só que, além dessa lembrança (velha), tive uma lembrança (nova), sobre um rapaz que me envolvi (pouco ou muito, não sei dizer, acho que o suficiente para me fazer escrever) que gostava dessa banda.

Eu estava em um turbilhão. Estou em um turbilhão com dores de cabeça, o que me levou a pensar: Por que os rapazes mexem tanto comigo? Por que me envolvo tanto? Por que sinto de uma forma tão pungente? Por que dispenso energia na procura de respostas às questões tão insignificantes.

Isso me irrita.

Confunde.

O que percebo é que relacionamentos, na sua maioria, são redundantes, um ciclo de começo, meio e fim. Um consenso feito entre duas pessoas que topam se envolver, sabendo que não ficarão juntas, que o fim estará próximo e que o contato será efêmero. O sofrer está previsto desde o início de todo o envolvimento, contudo, pagamos para ver. Porque a vida é isso: pagar para ver. Onde vai dar? Ninguém nunca tem a resposta ou o roteiro para nos passar. O que podem dizer é o famoso run, Forrest, run. Temos os amigos, os pais, os irmãos e o cachorro para nos dizer o caminho que devemos tomar para sofrer menos, viver mais. Ser feliz. Entretanto, o indicado, ainda não é resposta. A intenção é amenizar. Sarar. Fazer passar. E só.

Cansei de pagar para ver. Cansei da vida? Talvez. Estou em um caleidoscópio, que, conforme gira, vou junto. Participo da roda. Fico enjoada com as piruetas. Relacionamentos me enjoam. Algumas atitudes masculinas me enjoam. Vivo em uma era que cultuar o descartável e a indiferença é o que há. É a sensação do momento, uma sensação que me desconforta.

 Apesar disso, eu insisto. Insisto. Persisto? Só existo. Não quero me afogar.

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