como plumas

Month: Outubro, 2015

(Ir)real

Ontem à noite, sentei no meu banco habitual, peguei meu café de sempre e fiquei olhando as pessoas passarem como toujour. Diferente de alguns dias, apareceu um amigo para trocar uma ideia e, no meio das conversas (não me pergunte como chegamos a esse ponto), começamos a nos questionar sobre a realidade. A nossa realidade quanto seres humanos. Como sujeito ativo. Como indivíduo social.

Não que eu já não tenha feito isso antes, mas ontem foi o momento em que me dei conta de que podemos não estar aqui. Ou estar aqui, sem que o aqui, o agora, o hoje seja verdadeiro. Dizer em voz alta “não sei se esse é meu lugar” tornou meu deslocamento ou meu estranhamento com o mundo (chame de loucura, caso queira) tangível. Tornou a falta de realidade, real.

Não consigo provar esse volúvel sentimento de não-realidade para ninguém, (até porque, a única leitura que tenho sobre isso é o mochileiro das galáxias, que, venha a nós, embora seja sensacional, é bem perturbadora a pira do cara e a inconstância das personagens, e ainda tem os filmes do Nolan, que, cá entre nós de novo, não podemos caracterizá-los como de fácil compreensão). No entanto, a mesma falta de argumentos que tenho sobre “isso pode não ser real”, eu sinto para provar que essa vida, esse corpo, a matéria em si possa ser a única e exclusiva realidade. Você consegue?

Eu sinto, eu vejo, eu comando meu corpo, eu posso alterar meu espaço, minha ‘vida’, tenho controle sobre muitas coisas, inclusive, tenho decisões para tomar, tenho compromissos e metas para cumprir, tenho sonhos, futuro, tenho uma linguagem que me diferencia dos animais e tenho consciência. Tenho, certo? Sou uma pessoa, me conheço, me sei decor. Entretanto. Será apenas uma questão de prefixo? Como faço para sair desse limbo de confusão?

Não sei. O que eu sei é que, se sou um projeto de pessoa, que figura o the sims de alguém, preciso pedir: cara, melhore os meus gráficos.

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Belchior e eu

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Tenho uma relação meio estranha com músicas. Sempre quando alguém me pergunta: “o que você gosta de ouvir?”, eu já começo a babar, porque nunca sei o que responder. Não sei dizer o motivo disso acontecer, até porque música faz parte do meu dia, seja no trânsito, seja em minha casa ou na casa de um amigo, mesmo na trilha sonora de um filme eu tenho contato com o mundo musical, só não me ligo, como me ligo em um filme ou em um livro, por exemplo. Você acha estranho? Eu também acho, mas eu não deixo meu cigarro apagar em dias de tristezas, já que sempre é dia de ironia em meu coração. Reconhece esse trecho? É uma paráfrase do Belchior. Cantor que estou ouvindo agora, enquanto bebo um café e penso se volto a dormir ou não.

A chuva caí. Você ouviu? Por força desse destino, um tango argentino me vai bem melhor que o blues.

O que eu queria mesmo era estar na Argentina, hablando na língua dos argentinos, tomando um café argentino e comendo um alfajor pra rimar com Belchior. Pra rimar com minha vida. Comigo. Preciso de rimas, preciso de construções frasais com sujeito e predicado, para me complementar. Preciso me sentir completa. Preciso. Como? Não faço ideia. Só sei que preciso.

Já devo ter dito que gosto mesmo é de fluxo de consciência. Já disse, né? Para reforçar: gosto muito de fluxo de consciência. A dificuldade que tenho é que meus dedos não conseguem acompanhar o meu trem do pensamento (já assistiu divertida mente?). Ele passa piuipiui e não consigo escrever tudo o que ele traz, aqui. Isso acontece, porque minha mente funciona em vários ritmos, ritmos que não sei nomear ou seguir. Encontro uma placa. Paro. Continuo. E descambo serra à baixo.

É sempre assim.

Queria ser um escritor tipo Kafka. Acho que assim eu conquistaria as pessoas, né? O que me falta é um bom domínio das palavras. O poeta sempre consegue o que quer, não é? Eu sei que o Kafka não é poeta, ele está mais pra contista, mas quis falar de poeta, falei. Porque faço isso, tenho vontade, boto ela pra fora. Isso funciona comigo, funciona com você? Espero que sim. Só não coloco pra fora meus desejos, aí o mundo não resistiria, certo? Veja o Neruda, veja o Camões, eles sempre conquistaram as muchachas com um poeminha escrito, não sei, no guardanapo de papel, melecado de óleo da coxinha do bar. Sempre conquistaram. Até eu seria conquistada com todo esse amor. Camões abandonou a mulher amada, para salvar os lusíadas, naquele naufrágio, lembra? Então, aí depois disso, ele escreveu aquele soneto dedicado à pobre moça morta e ficou tudo perdoado. Tudo ficou lindo e todo mundo amou a amada morta (não salva pelo amante poeta), só pelo poema dedicado a ela. Justo isso? Eu não acho, mas quem sou eu na fila do pão pra questionar o poeta português e suas escolhas? Não sou ninguém mesmo.  Só eu acho Camões egoísta? Queria mesmo um cigarro. Sim, ele foi egoísta. Salvou o que lhe renderia sucesso e deixou uma vida UMA VIDA padecer no meio do mar. Por que? Porque ela não renderia dinheiro. O amor não vale nada. Desde dos séculos passados, o amor é um falido. Não enche a barriga de ninguém mesmo. Pra que nos serve? O amor é um sentimento de rico. Um adereço de luxo. Um adorno para pendurar no pescoço e dizer: eu amo. Ama? Pobre criança, comemore o dia 12, porque isso é o que você terá de felicidade. Amando ou não. Ouvindo músicas ou não.

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