Cronologicamente programado

by Renata Kelen

Hoje, justamente hoje, eu estou mais perdida do que o habitual. Talvez essa sensação tenha me seguido desde que tive consciência de que sou capaz de pensar. Ela me causa dor. Sei que em alguns momentos, como o de agora, eu já escrevi sobre o que sinto, sobre o que me confunde. A insistência em falar sobre os vazios que me acompanham, torna-me, com o passar dos anos, repetitiva: uma velha nova, com sentimentos antigos.

Ao falar sobre sentimentos antigos, percebo que sou atravessada por eles, constantemente, ao ponto de sempre, sempre, carregar nos ombros a experiência de amores anteriores e fracassados, de relacionamentos abusivos e opressores, de medos e preocupações perturbadoras. O que faço para sair ilesa dos efeitos colaterais dessa experiência que é (sobre)viver? Porque, com essa bagagem, ergo um amontoado de barreiras, para que ninguém se aproxime de mim. Com isso, a solidão dos meus dias dói, pois, ultimamente, o além, aquilo ali que existe fora do meu quarto, não tem me interessado. Nem tem feito sentido algum.

De manhã, eu assisti um seriado, aquele The Borgias, e o Papa disse, em determinado momento, que ele se sentiu leve, livre e em paz consigo mesmo, com o mundo, com Deus, em apenas um momento: quando ele se confessou com um padre franciscano. Eu quero que exista, para mim, a possibilidade de instantes pacíficos. Não quero confessar-me com algum padre (já que não acredito nisso), para encontrar o bem-estar. Não gosto da ideia de depender da remição de alguém, para que eu me sinta feliz. Entretanto, mesmo que minhas dúvidas sejam antigas e, nesta tarde, eu não sou a mesma mulher de antigamente, eu ainda continuo sem respostas e antologicamente descaracterizada.

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