como plumas

Month: Março, 2016

Fragmentos de mim, fragmentos de nada II

Declarou, indeterminadamente, ao cosmo, que não era possível se apaixonar.
Por mim. Por si. Por ninguém.

Um dia, senti-o me afagando, sussurrando e declarando sua paixão. Seu fogo. Com o dedo em mim, o único apaixonado emergiu.
Retumbante,
pulsante.
Como um andarilho de terras longínquas, desvendou lugares, desvendou esquinas, passagens e caminhos. Não se importou com a floresta, com as curvas. Notou o rio, que, sutilmente, convidou ao nado.
Sentiu o medo de afogar.
Preferiu não ir além.
Teve medo do desconhecido.
Quis recuar.
Entretanto, como que por feitiço, a minha escuridão te tomou e te sugou e te sugou e te sugou. Você chorou. Fiz-te chorar e sentir a mesma emoção que, antigamente, sentia ao assistir as explosões de fogos de artificio, sentado, docemente, no colo da sua amada mãe.
Eu sei que a sensação passou e, como que enrolado em um turbante de panos estrelados, você percebeu que a paixão existe, no corpo, solitariamente, no corpo. Não na alma.

Com isso, o gozo, o teu gozo, fez-te cego.
E ninguém, apenas o ninguém, será
seu guia.

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Fragmentos de mim, fragmentos de nada I

O nada.
Um fantasma que me segue. Um fantasma que me cerca. Um fantasma que me assombra. Teria apenas um rosto ou seria um emaranhado de faces perdidas, faces tardias, faces esquivas e vazias…? Vazias de mim. Vazias de ti. Vazia de nós.

O vazio espreita, enquanto o nada emerge.

Através dos seus olhos, enxergo a assombração que me transformei. Formada por rostos, por membros e línguas estranhas. Estrangeiros de mim. Passaram por meu corpo e habitaram o que não lhes eram de direito. Marcou a pele. Machucou o ritmo e destruiu, destruiu tudo o que demorei tanto para dar origem. Fizeram isso, com a simples intenção de hastear a bandeira e sumir. Negando, assim, o meu início. O meu fim.

sem data

faz tempo que não fico parada como agora
como hoje
faz tempo que não vejo o sol ir embora como agora
como hoje?
faz tempo que não acabo com a cartela de marlboro, como agora
agora, só agora.

Só agora percebo que você foi embora.
Só agora percebo que você nunca esteve presente.
Só agora, como agora, me alimento de sentimentos que você esqueceu de levar
De tomar
De me tomar.

Você diz c’est la vie e eu digo não não é.
Te dei de comer nesta mesa e você agora diz que não, que te neguei comida
Eu neguei?
Pergunto.
Respondo:
Você que me nega amor
Não é crime?
deus disse que é
você tem que amar o próximo
e o próximo sou eu
estou próxima, não estou?
Hoje estou,
Herege,
você sabe que sim estou

Você confundiu deslumbre com paixão
[o erro seria de semântica ou de sintaxe?]
E me deixou para arcar com o seu lixão
De consequências
De rastros
De rato roedor.
Que é

Sobra
Sobrado
Sobrancelha
Achado.

Palavras aleatórias.
Amores aleatórios.
Pessoas aleatórias
É o que resume nossa existência.
Não seria deus só palavras?
Não seria eu este poema?

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