Fragmentos de mim, fragmentos de nada II

by Renata Kelen

Declarou, indeterminadamente, ao cosmo, que não era possível se apaixonar.
Por mim. Por si. Por ninguém.

Um dia, senti-o me afagando, sussurrando e declarando sua paixão. Seu fogo. Com o dedo em mim, o único apaixonado emergiu.
Retumbante,
pulsante.
Como um andarilho de terras longínquas, desvendou lugares, desvendou esquinas, passagens e caminhos. Não se importou com a floresta, com as curvas. Notou o rio, que, sutilmente, convidou ao nado.
Sentiu o medo de afogar.
Preferiu não ir além.
Teve medo do desconhecido.
Quis recuar.
Entretanto, como que por feitiço, a minha escuridão te tomou e te sugou e te sugou e te sugou. Você chorou. Fiz-te chorar e sentir a mesma emoção que, antigamente, sentia ao assistir as explosões de fogos de artificio, sentado, docemente, no colo da sua amada mãe.
Eu sei que a sensação passou e, como que enrolado em um turbante de panos estrelados, você percebeu que a paixão existe, no corpo, solitariamente, no corpo. Não na alma.

Com isso, o gozo, o teu gozo, fez-te cego.
E ninguém, apenas o ninguém, será
seu guia.

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