rascunho: sem resposta

Sonhei com você esta noite. Foi um sonho solitário, porque, embora você tenha participado dele, você não estava presente. Hoje, como em uma extensão do sonho noturno, você continuou, em formato de saudade dolorida, mal diluída, mal dissolvida, mal resolvida, no meu estômago, na minha cabeça, por aqui, para que eu não te esquecesse por hoje. Por hoje.

***

– oi, tudo bem? faz tempo que eu estava dando sopa por aqui, em dúvida se te ligaria ou não. juro que titubeei, devido a nossa última conversa, só que eu precisava arriscar. lembra aquela vez que eu cheguei na sua casa, pela primeira vez, sozinha, embaixo de um puta temporal, pra gente ficar a tarde toda conversando, bebendo café e assistindo teoria de tudo? lembra, riso, aquela vez também fiquei com receio de ir te ver. o receio só durou até o momento em que coloquei meus pés entre suas pernas, porque eu estava com frio e você estava quentinho, quentinho, até que você me descongelou e me levou pro quarto. aí eu tive certeza de que estava no lugar certo. sim, é, eu também, eu também. eu fui embora cedo, né? eu sempre vou embora corrida. ah, não queria atrapalhar você, né? você tava todo todo ocupado. bem isso, estudando, né? bem, de qualquer forma, no outro dia, você me levou ao mercado para comprar oreon, eu estava emburrada por alguma coisa… ai que bolacha maravilhosa, né não? comi os dois pacotinhos sozinha e você deixou que eu comesse a bolacha i n t e i r a sozinha! é, eu sei, sou a gulosa de nós. sempre quis tudo, com pressa. você me tirou pra dançar neste dia, lembra? eu fiquei com vergonha de dançar no estacionamento do mercado, você disse que eu era boba. você até andou de mãos dadas comigo, não foi? uhum, andou. é, eu sei que sua mão fica suada, mas eu meio que não me importava com isso, não me importo, ainda, eu acho. imaginei a gente namorando, sabia? pensei que eu chamaria sua mãe de sogra, sogra, quero bolo de chocolate, sogra. é, não deu, não daria, né? eu sei que pensar nisso não ajuda em nada, é, mas é que fico aqui lembrando daquele dia que eu dormi na sua rede até às duas da manhã, de tão cansada, preocupada, esgotada que estava, até que você me deu colo e apaguei. antes de apagar, lembro de você comentando algo sobre morcegos, comentou, não comentou? sabia! eu não me esqueceria disso. lembro, inclusive, que você tinha um cheiro bom. e eu pensei: sou capaz de ficar aqui, com a mão na barba dele, até amanhecer o dia. poderia ter ficado? é, teríamos ficado com dores nas costas mesmo. desculpa se doeu suas costas. falando em costas, teve aquele dia que você torrou no sol, porque esqueceu o protetor solar, e eu passei hidratante para as mãos em você, lembra? eu lembro, você parecia feliz naquele momento. feliz e vermelho. eu seria capaz de amar cada pintinha tostada daquelas que estavam no seu corpo. não, é, verdade, amar é exagero, eu seria capaz de gostar, melhorou? curtir? talvez? tanto faz agora, né? é… ah, e o melhor estrogonofe do mundo é de quem? não, não o da sua mãe. o melhor é aquele que eu fiz aquela vez, que, mesmo com pouco catchup, ficou bom pra caramba, não foi? é, eu coloquei o creme de leite no momento errado, sim, você tem razão. não, não estou falando isso só pra te bajular, não. é só que você tem razão mesmo. chego a dizer que gostaria de saber se você tinha razão, quando disse que o pôr-do-sol, aquele visto pela janela do seu banheiro, é o mais lindo do mundo. sim, mande fotos, quero ver sim. oi? não, não foi eu que loquiei, talvez eu só tenha ficado assustada, quando você disse que estava apaixonado. você lembra da minha expressão desse dia? foi mais engraçada do que a cara que eu fiz, quando vi que você tinha quebrado meus óculos. ah, nem vem, foi total culpa sua. sim, não, não tenho nada a ver com o que você fez. pôpará. não, não loquiei, só queria mais atenção, queria sair com você para caminhos mais longos do que a ida diária até a padaria para comprar cigarros. é, talvez agora, pareça demais mesmo, até porque eu sempre tive mais tempo para nós, por isso, talvez, eu tenha ficado carente; ah, desculpa, não, não estou chorando, uhum, vou parar, mas é que, ainda, falar sobre isso me machuca. sim, tenho algumas teorias sobre o seu término brusco, pela internet: a minha negação para fazer sexo, talvez surgiu um outro rolê, talvez também o lance da liberdade, de espaço ou só desilusão, mesmo, né? afinal, apaixonado por mim? no way, right? risos. é, sou terrível, é… é, eu sei que não posso obrigar ninguém a continuar apaixonado por mim. peço desculpas, me desculpa por só saber falar sobre séries… tudo bem mesmo? enfim, queria te ver um dia desses pra te dar um abraço, eu gosto dos seus abraços. sim, sim, quando você puder é só me avisar! me desculpa pelo tempo no telefone. eu só queria dizer mesmo que, desde o dia que você disse que não teria mais nada para me dizer, eu te tranquei dentro de mim, te deixei lá, sufocado, mas ainda dentro de mim. até que, o sonho, sabe aquele que eu comentei contigo? não, não é um sonho do tipo que se tira a roupa no meio da noite, besta. o outro, o do sentimento bom. aquele sonho com cores de fotos antigas, sabe? sim, o desta noite passada. é, então, queria dizer que hoje, depois da sensação nostálgica etc., eu chorei, pela primeira vez, por isso precisava ter essa conver… alô?

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