Do muro ao dia seguinte

Não deveria dizer que eu queria mesmo era me encostar no muro do nosso encontro, enquanto que, de encontro com meu corpo, você dissesse, no meu ouvido, entre cabelos mal penteados, o que nós dois carregávamos no pensamento. Você poderia dizer, ainda, que encostar na minha pele, no vão das costas do vestido, não era suficiente, que você queria mais. Poderia, inclusive, pegar na minha mão, tocar meu queixo e dizer: – vem comigo, paranaense.
Eu iria. Sem guia.
Provavelmente, você me levaria para um desses bares conceituais das ruas flamenguistas, onde tocam Los Hermanos. Ou então me levaria para ver a banda passar cantando coisas de amor, na beira mar. Ou me levaria para um bar nada convencional, com pole dance, para que eu vesse o que as pessoas podem fazer com um bom par de bundas e rebolados.
Adoraria estar entre pessoas carnavalescas com você.
Adoraria estar entre o cheiro das pessoas e sentir só o seu se destacando entre elas.
Ficaríamos bêbados, ali mesmo. Bêbados de álcool, bêbados com a noite, bêbados com a falta do beijo ainda não dado. Não, você não teria me beijado assim tão facilmente, não é? Eu sei, te conheço um pouco. Sei que você estaria inseguro perto da menina da fala mansa e diferente. Sei que você se perguntaria se estava mesmo fazendo o certo, afinal, amanhã eu não estaria mais ali, não é mesmo? Como de fato eu não estava.
Embora a distância fosse inevitável, o mar nos chamaria. A praia, que despontava pertinho do bar, seria nossa guia para a última noite. Eu pediria um cigarro. Você diria: – só tenho marlboro vermelho. Eu aceitaria dividi-lo com você. Sentaríamos pertinho, na areia mesmo, com os braços tocando e o cigarro com a cinza por bater. Dois tímidos. Sem assunto. Só o silêncio e a rapidez da respiração ansiosa. Por fim, você me perguntaria como era o carnaval na minha cidade. Eu responderia que não é tão mágico quanto o de vocês. Que lá, as pessoas eram mais frias. Você diria que eu não faço, provavelmente, parte dessas pessoas, porque você sentia o meu calor. Eu ficaria vermelha, óbvio, mas sorriria, ao tragar a última fumaça do cigar que você me passou.
Estaria fresco com a brisa. Meus cabelos estariam no rosto, você os colocaria atrás da minha orelha, enquanto olharia pra minha boca. Você gosta dela, certo? É sempre assunto de conversa o formato dessa parte do meu corpo. Claro que eu retribuiria, baixaria os olhos e você, recatado e do lar, beijaria meu rosto. MEU ROSTO? Sério? Sério. Me pegaria pela mão e me levaria para perto do mar gelado. – Tá gelado, eu diria! Você só daria esse seu risinho enviesado de dentes perfeitos, para acrescentar: – não tá não! Claro que estava, mas eu não ia discutir sobre isso. Eu iria com você, mesmo sem saber a nadar.
Veria você arrancando a camisa branca do casamento e a calça preta do casamento e o all star preto do casamento. Ali, na minha frente. Meu padrinho tímido ficando de cueca, na minha frente! Eu daria risada, enquanto você desviaria o olhar. Eu tiraria meu vestido do casamento. Não ia te deixar sozinho nessa, não é? Você perguntaria se eu ainda estava com frio. Eu só reviraria os olhos, porque, nesse momento, o que menos pensaria era sobre o vento. Eu me deteria nas suas tatuagens, no seu umbigo fundo, no seu caminhozinho de pelos, ali na barriguinha de cerveja. Eu olharia seu bronzeado arrepiado, em contraposição à minha brancura transparente. Seria lindo: nós dois, parados e se observando, com as roupas espalhadas em nossa volta, o vento batendo calmamente. Você tocaria meu pescoço. Eu te ofereceria minha boca. Sem restrição. Só daria. Você beijaria. De leve. Para medir. Para sentir. Seria pouco para mim. Ia querer sua língua tocando a minha, e meus dentes mordendo seu lábio inferior. Sua barba me arranhando. Você pegaria minha bunda, porque a vergonha já seria uma coisa dos momentos anteriores, me seguraria forte o suficiente para que eu envolvesse sua cintura com minhas pernas curtas. Você aguentaria, né? Ofegaria. Pararia para te olhar. Como demorou!
Você me levaria para o mar e me seguraria lá dentro, só para eu sair do meu topor pós-beijinho. Eu saí. Ao invés de brava, eu riria da sua cara, da minha cara. Da maquiagem escorrendo no olho. Do rímel que me deixaria com cara de Eva Green (cof cof). O calafrio do gelado do mar. Eu riria e você se juntaria em mim. Comigo. Me abraçaria até eu parar de tremer, você se preocupa, né. Quentinhos, já. Ofegantes, ainda. Tiraria meu sutiã? Claro que tiraria. Deixaria a onda levá-lo para longe de qualquer regra que diga que mulher não pode pagar peitinhos na praia. Você os acariciaria, beliscaria de leve. Diria que são pequenos, mas cabem na sua mão e na sua boca. Eu daria uma risadinha nervosa e carregada de tensão sexual. Arquearia o meu corpo para perto de você. Pertinho. E afastaríamos as peças que nos impediam de ficar mais próximos ainda. Completamente próximos.
Entre o molhado do mar e o molhado de dentro, nos encontraríamos. Lentamente, no início. Para, depois, tornar-se algo mais urgente. Como se precisássemos nos achar num lugar que não tínhamos passado antes. Sentir algo que não tínhamos sentido ainda. Antes da noite acabar. Antes da partida. Sentimos. Eu primeiro. Tremendo. Não mais de frio. Mas de comichões bons que me beliscavam o corpo. Enquanto que você, mantendo-me em seus braços, esperaria minha moleza passar. Até que você viesse me encontrar nesse marasmo de sensação. E explodisse, dentro de mim, o líquido que seu corpo produz em momentos como esse.
Abraçados, ficaríamos. As ondas batendo e o frio arrepiando a espinha do corpo dormente. Você me levaria até a areia. Deitaríamos em cima das roupas. Longe de todos, longe de tudo. Tão longe quanto ficaríamos em poucas horas. Não queríamos dormir. Não queríamos nos separar. Você fazendo desenhos imaginários na minha barriga sardenta e eu jogando a fumaça para o céu, enquanto falava qualquer besteira sobre, não sei, como é difícil falar o R retroflexo, perto de pessoas que tiram sarro da minha caipirice. Você falaria que esse é o meu maior charme, depois dos meus pelos pubianos salgados. Eu mandaria você dormir. Você me ensinaria coisas sobre a vida, o universo e tudo mais…

O sol nos encontraria ali.
Nos veria ali também.
Abraçados, com braços e pernas.
Em roupas molhadas e corpos esfolados.
E o riso na boca adormecida
permaneceria até os próximos meses
de desencontro, lembrança e saudade.

Diferente de agora, ao menos teríamos a lembrança.

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