como plumas

Categoria: fragmentos de mim

Fragmentos de mim, fragmentos de nada III

Me capturou. Eu, a presa que queria entregar-se, entregou-se; plena. No olho do corpo, no cu do mundo, encontramo-nos. No vazio, no vácuo não habitado, senti, sentimos-nos. Explodi. Explodimos-nos.

Com meu olhar virgem, alcancei-te.
Vi e deixei ver uma cena inédita. Gravada com a melhor posição da câmera colocada em minha cabeça e contracenada com a pessoa mais pungente que ousou atravessar-me.
Sente?
Eu sinto;
Sinto a química da proximidade das peles; a química que produziu, constituiu o meu pensamento e materializou a realidade, a nossa realidade; a sensação que dançou entre nossos corpos, abrandou qualquer ressalva e nos fez nós. Pura maciez expressa em cores.

Fui sua. Completa, finalmente, a sós. Em sincronia, em posição para executar a dança que só nós sabemos dançar, respiramos o mesmo compasso.
Economizei sentido, para sentir o Absoluto.
Economizei sentido, para encontrar o Inefável.

*

Inventei a verossimilhança que faltava, acreditei no (in)tangível que passava.
Por fim, em estado de pura letargia consciente, eu contemplei. Deixei contemplar.
Veja meu mundo através dos meus olhos, beibe, ele não é grande?
É tudo nosso.

E só poderia ser com você.

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Fragmentos de mim, fragmentos de nada II

Declarou, indeterminadamente, ao cosmo, que não era possível se apaixonar.
Por mim. Por si. Por ninguém.

Um dia, senti-o me afagando, sussurrando e declarando sua paixão. Seu fogo. Com o dedo em mim, o único apaixonado emergiu.
Retumbante,
pulsante.
Como um andarilho de terras longínquas, desvendou lugares, desvendou esquinas, passagens e caminhos. Não se importou com a floresta, com as curvas. Notou o rio, que, sutilmente, convidou ao nado.
Sentiu o medo de afogar.
Preferiu não ir além.
Teve medo do desconhecido.
Quis recuar.
Entretanto, como que por feitiço, a minha escuridão te tomou e te sugou e te sugou e te sugou. Você chorou. Fiz-te chorar e sentir a mesma emoção que, antigamente, sentia ao assistir as explosões de fogos de artificio, sentado, docemente, no colo da sua amada mãe.
Eu sei que a sensação passou e, como que enrolado em um turbante de panos estrelados, você percebeu que a paixão existe, no corpo, solitariamente, no corpo. Não na alma.

Com isso, o gozo, o teu gozo, fez-te cego.
E ninguém, apenas o ninguém, será
seu guia.

Fragmentos de mim, fragmentos de nada I

O nada.
Um fantasma que me segue. Um fantasma que me cerca. Um fantasma que me assombra. Teria apenas um rosto ou seria um emaranhado de faces perdidas, faces tardias, faces esquivas e vazias…? Vazias de mim. Vazias de ti. Vazia de nós.

O vazio espreita, enquanto o nada emerge.

Através dos seus olhos, enxergo a assombração que me transformei. Formada por rostos, por membros e línguas estranhas. Estrangeiros de mim. Passaram por meu corpo e habitaram o que não lhes eram de direito. Marcou a pele. Machucou o ritmo e destruiu, destruiu tudo o que demorei tanto para dar origem. Fizeram isso, com a simples intenção de hastear a bandeira e sumir. Negando, assim, o meu início. O meu fim.

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