como plumas

(Ir)real

Ontem à noite, sentei no meu banco habitual, peguei meu café de sempre e fiquei olhando as pessoas passarem como toujour. Diferente de alguns dias, apareceu um amigo para trocar uma ideia e, no meio das conversas (não me pergunte como chegamos a esse ponto), começamos a nos questionar sobre a realidade. A nossa realidade quanto seres humanos. Como sujeito ativo. Como indivíduo social.

Não que eu já não tenha feito isso antes, mas ontem foi o momento em que me dei conta de que podemos não estar aqui. Ou estar aqui, sem que o aqui, o agora, o hoje seja verdadeiro. Dizer em voz alta “não sei se esse é meu lugar” tornou meu deslocamento ou meu estranhamento com o mundo (chame de loucura, caso queira) tangível. Tornou a falta de realidade, real.

Não consigo provar esse volúvel sentimento de não-realidade para ninguém, (até porque, a única leitura que tenho sobre isso é o mochileiro das galáxias, que, venha a nós, embora seja sensacional, é bem perturbadora a pira do cara e a inconstância das personagens, e ainda tem os filmes do Nolan, que, cá entre nós de novo, não podemos caracterizá-los como de fácil compreensão). No entanto, a mesma falta de argumentos que tenho sobre “isso pode não ser real”, eu sinto para provar que essa vida, esse corpo, a matéria em si possa ser a única e exclusiva realidade. Você consegue?

Eu sinto, eu vejo, eu comando meu corpo, eu posso alterar meu espaço, minha ‘vida’, tenho controle sobre muitas coisas, inclusive, tenho decisões para tomar, tenho compromissos e metas para cumprir, tenho sonhos, futuro, tenho uma linguagem que me diferencia dos animais e tenho consciência. Tenho, certo? Sou uma pessoa, me conheço, me sei decor. Entretanto. Será apenas uma questão de prefixo? Como faço para sair desse limbo de confusão?

Não sei. O que eu sei é que, se sou um projeto de pessoa, que figura o the sims de alguém, preciso pedir: cara, melhore os meus gráficos.

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Belchior e eu

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Tenho uma relação meio estranha com músicas. Sempre quando alguém me pergunta: “o que você gosta de ouvir?”, eu já começo a babar, porque nunca sei o que responder. Não sei dizer o motivo disso acontecer, até porque música faz parte do meu dia, seja no trânsito, seja em minha casa ou na casa de um amigo, mesmo na trilha sonora de um filme eu tenho contato com o mundo musical, só não me ligo, como me ligo em um filme ou em um livro, por exemplo. Você acha estranho? Eu também acho, mas eu não deixo meu cigarro apagar em dias de tristezas, já que sempre é dia de ironia em meu coração. Reconhece esse trecho? É uma paráfrase do Belchior. Cantor que estou ouvindo agora, enquanto bebo um café e penso se volto a dormir ou não.

A chuva caí. Você ouviu? Por força desse destino, um tango argentino me vai bem melhor que o blues.

O que eu queria mesmo era estar na Argentina, hablando na língua dos argentinos, tomando um café argentino e comendo um alfajor pra rimar com Belchior. Pra rimar com minha vida. Comigo. Preciso de rimas, preciso de construções frasais com sujeito e predicado, para me complementar. Preciso me sentir completa. Preciso. Como? Não faço ideia. Só sei que preciso.

Já devo ter dito que gosto mesmo é de fluxo de consciência. Já disse, né? Para reforçar: gosto muito de fluxo de consciência. A dificuldade que tenho é que meus dedos não conseguem acompanhar o meu trem do pensamento (já assistiu divertida mente?). Ele passa piuipiui e não consigo escrever tudo o que ele traz, aqui. Isso acontece, porque minha mente funciona em vários ritmos, ritmos que não sei nomear ou seguir. Encontro uma placa. Paro. Continuo. E descambo serra à baixo.

É sempre assim.

Queria ser um escritor tipo Kafka. Acho que assim eu conquistaria as pessoas, né? O que me falta é um bom domínio das palavras. O poeta sempre consegue o que quer, não é? Eu sei que o Kafka não é poeta, ele está mais pra contista, mas quis falar de poeta, falei. Porque faço isso, tenho vontade, boto ela pra fora. Isso funciona comigo, funciona com você? Espero que sim. Só não coloco pra fora meus desejos, aí o mundo não resistiria, certo? Veja o Neruda, veja o Camões, eles sempre conquistaram as muchachas com um poeminha escrito, não sei, no guardanapo de papel, melecado de óleo da coxinha do bar. Sempre conquistaram. Até eu seria conquistada com todo esse amor. Camões abandonou a mulher amada, para salvar os lusíadas, naquele naufrágio, lembra? Então, aí depois disso, ele escreveu aquele soneto dedicado à pobre moça morta e ficou tudo perdoado. Tudo ficou lindo e todo mundo amou a amada morta (não salva pelo amante poeta), só pelo poema dedicado a ela. Justo isso? Eu não acho, mas quem sou eu na fila do pão pra questionar o poeta português e suas escolhas? Não sou ninguém mesmo.  Só eu acho Camões egoísta? Queria mesmo um cigarro. Sim, ele foi egoísta. Salvou o que lhe renderia sucesso e deixou uma vida UMA VIDA padecer no meio do mar. Por que? Porque ela não renderia dinheiro. O amor não vale nada. Desde dos séculos passados, o amor é um falido. Não enche a barriga de ninguém mesmo. Pra que nos serve? O amor é um sentimento de rico. Um adereço de luxo. Um adorno para pendurar no pescoço e dizer: eu amo. Ama? Pobre criança, comemore o dia 12, porque isso é o que você terá de felicidade. Amando ou não. Ouvindo músicas ou não.

Roteirize

Não tenho entusiasmo, não sou poesia. Isso deveria me incomodar, mas não incomoda. Gosto de quem sou, quem me tornei. Com o tempo aprendi a gostar. Como desgostar se sempre serei minha companhia. Vejo que um dia estarei sentada, no café de sempre, bebendo o suco de sempre, fumando o cigarro de sempre e sozinha como sempre. Isso deveria me incomodar, mas não me incomoda. Não penso nisso como algo ruim. Sou chata. Por dentro, só tenho órgãos. Sinto que vivo em um filme, só não decidi ainda qual seria o diretor. Almodóvar, Lars, Godard, ou… A minha única exigência é poder escolher o figurino. Me vestiria como a Summer ou/e personagens semelhantes a ela. Teria desfechos semelhantes ou teria desfechos inconclusos, porque eu sou assim: pura falta de fim. Isso deveria me incomodar, mas eu deixo para lá.

A deriva

Uma amiga sempre me diz: escreva, sua tristeza passará. Um amigo, por sua vez, sempre me diz: não se exponha e pare de roer unhas, você faz isso com muita frequência. Já outra amiga sempre me diz: vomite, escove os dentes e fique limpa.

Não tenho como contestar, já que todos eles têm razão. Tenho grandes amigos e eles me conhecem bem, pelo visto. No entanto, apesar de todos os conselhos e instruções de como me manter a deriva (ou respirando), eu ainda não sei qual é o segredo para a sanidade. Ainda não sei quando escrever, não me expor ou vomitar fará todas as angústias e adeuses e vazios e esperas saírem para fora de mim. Parece um parto, mas não é. É só a busca pelo desapego do que acumulei durante meu grande e velho percurso de vida.

Costumo escrever? Não costumo. Infinitas pessoas já fizeram isso antes de mim, infinitamente melhor. Infinitas pessoas continuarão escrevendo depois de mim e também serão melhores. Apesar disso, por que justo hoje estou tentando?

É tédio? Não é, porque, mesmo que a vida não tenha sido tão generosa, o tédio não tem me encontrado com muita frequência. Penso que minha mente é como milhares de redes que se conectam e funcionam mesmo quando eu quero só dormir. Então, caso o marasmo apareça, meu cérebro me mantem ocupada. É preocupação? Um pouco. Milhões de coisas passam por mim e me causam dor no estômago. Talvez quem me olha, mas não observa, pensa que sou serena. Não sou serena. Sou um amontoado de conflitos e dilemas e divagações e medos que me fazem perder o sono e, em algumas vezes, a vontade de tentar seguindo. Isso pode ser assunto para um outro dia, até porque, preciso chegar no tópico que quero. É a falta? Talvez, pode ser, quem sabe? Sinto mais falta de pessoas objetos animais tempos passados chocolates que comi bebidas que bebi lugares que visitei do que sou capaz de mencionar.

Hoje, em específico, após ouvir uma música do Oasis no rádio, ao voltar de uma conversa pesada com um amigo querido, lembrei de várias situações que já passei com essa trilha sonora. Teve aquela vez, por exemplo, que beijei o menino desconhecido, da cidade desconhecida, no palco do bar desconhecido. Beijei, entrei numa nave espacial, que algumas pessoas chamam de carro, e tive uma noite surpreendente. Só que, além dessa lembrança (velha), tive uma lembrança (nova), sobre um rapaz que me envolvi (pouco ou muito, não sei dizer, acho que o suficiente para me fazer escrever) que gostava dessa banda.

Eu estava em um turbilhão. Estou em um turbilhão com dores de cabeça, o que me levou a pensar: Por que os rapazes mexem tanto comigo? Por que me envolvo tanto? Por que sinto de uma forma tão pungente? Por que dispenso energia na procura de respostas às questões tão insignificantes.

Isso me irrita.

Confunde.

O que percebo é que relacionamentos, na sua maioria, são redundantes, um ciclo de começo, meio e fim. Um consenso feito entre duas pessoas que topam se envolver, sabendo que não ficarão juntas, que o fim estará próximo e que o contato será efêmero. O sofrer está previsto desde o início de todo o envolvimento, contudo, pagamos para ver. Porque a vida é isso: pagar para ver. Onde vai dar? Ninguém nunca tem a resposta ou o roteiro para nos passar. O que podem dizer é o famoso run, Forrest, run. Temos os amigos, os pais, os irmãos e o cachorro para nos dizer o caminho que devemos tomar para sofrer menos, viver mais. Ser feliz. Entretanto, o indicado, ainda não é resposta. A intenção é amenizar. Sarar. Fazer passar. E só.

Cansei de pagar para ver. Cansei da vida? Talvez. Estou em um caleidoscópio, que, conforme gira, vou junto. Participo da roda. Fico enjoada com as piruetas. Relacionamentos me enjoam. Algumas atitudes masculinas me enjoam. Vivo em uma era que cultuar o descartável e a indiferença é o que há. É a sensação do momento, uma sensação que me desconforta.

 Apesar disso, eu insisto. Insisto. Persisto? Só existo. Não quero me afogar.

Cinquenta Tons – Resenha crítica.

É um pouco difícil admitir que cedi a tentação de ler os livros da saga Cinquenta Tons. Fiz isso porque, como aluna de Letras, acredito na necessidade de estar por dentro do que acontece nesta Literatura Universal aclamada por jovens (não apenas jovens) nos dias de hoje.

Além disso, devo confessar que a curiosidade pesou muito no momento em que vi os burburinhos na internet e a grande repercussão que gerou. Prova disso, é que o livro de E L James recebeu diversos prêmios, vendeu mais de 10 000 000 de livros nas seis primeiras semanas e, ultrapassou assim, Harry Poter e Código da Vince no Reino Unido. Como não querer bisbilhotar o que acontece nessas páginas depois de todos esses números? Então, peguei os livros e comecei a tarefa.

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A história nada mais é que uma mocinha, Anastacia Steele, virgem, universitária, pobre e tímida que conhece Christian Grey, um sadomasoquista mandão, problemático e, sobretudo, bilionário. Ana se apaixona pelo Dominador e então começam as negociações para que ela torne-se sua Submissa. No entanto, durante esse entendimento, Steele quer algo mais, algo além da pancadaria e orgasmos estranhos. Ou seja, ela quer tocar o intocável Grey, entende-lo, curá-lo, trazer de volta a vida. Dar amor pra sarar todas as feridas! (NÃO! Não estou exagerando, é exatamente esse clichê que está nas páginas dos aclamados best-sellers!).

A negociação, então, é deixada de lado, já que o imprevisível Cinquenta Tons (apelido que Christian se dá) quer experimentar o desconhecido com a inocente Ana. E assim, o relacionamento deles se desenvolve. Ops! Não se desenvolve, o livro não se desenvolve, a escritora não desenvolve, Ana não desenvolve, NADA desenvolve neste romance.

O livro começa e termina com o mesmo conflito. Ana pirando com as ex-submissas do suposto namorado/marido/amante/espancador/dominador, Sra Steele tentando entende-lo, seduzi-lo, impressioná-lo etc. E Christian mandando, tendo ciúmes, gastando rios de dinheiro com ela, interferindo na vida de todos, maltratando funcionários e fazendo com que Ana se alimente bem.

Existe uma falta de coerência e coesão neste livro, que até eu, que não sou a minha professora de Lingüística, consegui perceber. Não há desenvolvimento, como já disse, a obra não traz novos acontecimentos, não há progressão! É triste, mas chega um momento, que a autora não possui mais ideias sobre o que fazer para que haja ação, então ela começa a colocar a troca de e-mail entre os personagens para “matar” tempo, ou seja, os dias são retratados através de curtos e-mails para que a trama se desenrole e o momento certo para algum acontecimento plausível chegue.

 Ah, e claro, além de tudo, temos o sexo.

O tal do sexo presente no livro é algo um tanto utópico e ilusório. Tudo bem, existem os gostos e práticas sexuais e cada um vive na sua com isso, mas a tal Anastacia Steele e o lindíssimo Grey são insaciáveis.  Existe o romance, o conto na história, no entanto o que preenche a média de 500 páginas de cada livro é o velho sexo. É tanto, que o leitor sente-se cansado com toda aquela baboseira de açoite, chicotes, algemas, bolas de metais, não-sei-o-que anais, orgasmos, gemidos e rapidinhas. A verossimilhança passa longe desta obra, até porque ela não existe aqui, já que não só de sexo vive o homem (bom, eu gosto de pensar assim!).

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O drama que a Ana causa a respeito disso tudo é gigantesco, tanto que é compreensível os tapas que ela recebe! Ela passa os livros decidindo se gosta ou desgosta das práticas do parceiro, então, durante toda essa descoberta, ela passa chorando, emagrecendo, bancando a revoltada e dando pro irresistível Chris.

O verbo “dar”, nesta conotação empregada, me lembra que a linguagem utilizada no livro é chula, digna de contos eróticos que circulam pela internet e isso me aborreceu muito. Não li a cópia original, então não sei se atribuo este defeito às tradutoras ou à autora mesmo.

Bem, vocês devem estar se perguntando “onde a Renata quer chegar com essa crítica ao sexo, já que a obra é erótica?” Sei que é um conteúdo adulto, sei que o propósito desta produção é o de excitar leitoras que já perderam o fervor, ou alimentar a curiosidade das ninfas, ou mostrar o que o amor e o sexo incondicional é capaz. Sei disso. Mas, mesmo com o meu escasso conhecimento sobre literatura erótica, tive contato com autores que merecem e são dignos do título que levam à respeito de suas obras. Henry Miller e Anaïs Nin são grandes exemplos disso.

Além de tudo isso, há também o machismo espreitando, pairando em todo o decorrer da obra. Aqui é pregado que as mulheres só se sentirão satisfeitas quando encontrarem o homem rico, que “cuida” do que é seu, que “trepa com força” e, sobretudo, tenham uma carreira sucedida e, posteriormente, sejam donas desse local, com a ajuda do macho. Já que é isso o que acontece. Tudo o que a Ana tem/recebe/adquire/come/escolhe/vive/faz é porque o Machão deu ou proporcionou. Nada é dela, nada é conquistado por mérito próprio. Já o cuidado demonstrado por Grey é resultado da sua falta de confiança nas fêmeas. Ele acredita que a pobre Ana nem alimentar-se sozinha é capaz (o que é retratado no livro como não sendo mesmo!).

Por fim, me pergunto, por que esta obra, apesar de todos os defeitos que consigo apontar (e alguns outros que não vou por aqui, até porque tem uma grande carga psicológica, já que o Mr. Grey sofre de síndrome de Édipo) fez e, ainda faz, tanto sucesso entre a mulherada? Só consigo pensar em uma coisa: A carência. A maioria quer um doido, rico e apaixonado Grey perseguindo seus calcanhares. A volúpia, a lasciva, o jogo… É o que esperam da vida. É o que cobram de seus parceiros. Eu acho isso triste, porque os fatos só comprovam o quanto nossa sociedade está vazia e muito impressionável.Image

Muitos me diriam, “ok, Renata, mas esse livro veio para suprir a demanda dos que gostaram da Saga Crepúsculo” e eu discordarei disso. Afinal, apesar de não ser fã dessa saga, é notório que é bem escrito, há progressão, verossimilhança e a história consegue manter os leitores ávidos pelo próximo livro. O que nos Cinquenta Tons não acontece, pois no terceiro livro eu já estava pensando seriamente em suicídio.

Para fechar, o que muito me alegrou, esses dias, foi abrir uma página de notícias e ler que o nosso querido Paulo Leminski, poeta curitibano, conseguiu superar a trilogia, aqui comentada, na lista de mais vendidos da Livraria Cultura. (Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/livros/2013-03-21/paulo-leminski-bate-cinquenta-tons-de-cinza-em-lista-de-mais-vendidos.html Acesso em: 22 de março de 2013). Sinal de que, talvez, as coisas não estejam tão perdidas assim.

(as imagens foram retiradas do Google)

Karen, Kelen ou você mesmo.

Karen (ou kelen, ou você mesmo) costuma falar sozinha, além disso, sonha sozinha também. Ela não sabe dançar, mas às vezes finge bem.  Ela dança sozinha, como sonha e fala. Um dia, dançava APESAR DE VOCÊ AMANHÃ HÁ DE SERRRRRR OUTRO DIA e um moço a cutucou “- moça você está bem? – sim… – mas você está dançando… sozinha… – e você não está rindo disso. Ria.” Gosta de música indie e não entende muito bem o que isso quer dizer, se é que quer dizer algo. Não escreve muito, apesar de ter um calo no dedo. Não lê muito, apesar de usar óculos. Nada nunca é suficiente, na verdade. Não entende de Godard, não faz medicina e não fala alemão. Foi dançarina de balcão, recepcionista de posto de saúde, frentista, entregadora de jornal e vendedora de calçados. Entende de marca de calçados e sabe reconhecer e diferenciar um all star autêntico. Para ela, todos os homens usariam all star. Limpo ou sujo. All Star. E mulheres estariam sempre de havaianas, ou moleca de vó. Por que não? Ela nunca soube usar salto mesmo. Gosta mesmo é de coturnos para não parecer feminina. Ela feminina? Nem combina! Desastrada e derruba tudo mesmo. Tem como ser delicada? Não, não tem. Confunde nomes: Juracir pode ser Jurandir, Jundiaí, Jura, Juarez. Marçal pode ser Marcelo, Marciel, Macio, Maurício… E, ainda, tem o R retrocesso que faz com que ela não consiga falar A-M-O-R-T-E-C-E-D-O-R.

Não é “intelectual”. Não gosta (ou não sabe se gosta) do Bandeira, do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. Não sabe falar sobre o Planalto Central, nem de magia ou meditação. Tem é medo de espíritos. Faz duas semanas que dorme com os pais porque tem medo do vô que morreu. Ele vem pedir sua bengala pra ela. Mas como entregar, meu deus? Já está tudo encaixotado! Só sabe de uma coisa, a casa é assombrada mesmo. Só o quarto dos pais que não. É uma pseudo-suícida. Daquelas que se identificam com o Harold do “ensina-me a viver” e detesta a Maude por “ensinar que a vida é legal”. Mas como diz Woody, “e se for verdade que Deus não existe e só se vive uma vez? Não quer viver essa experiência? Não é tão chato assim…” e talvez, apesar do talvez ser uma linha muito tênue pra se apoiar, talvez ele tenha razão. Karen ama as palavras, não frases, mas as palavras e seus significados. Desde sempre leu dicionários. Nunca decorou todas as palavras e suas atribuições, mas sempre achou divertido saber que existem palavras pra tudo o que quer dizer. Tudo! Isso não é mágico?

Mágico é seu dente do ciso nascendo.

A menina gosta de participar de eventos acadêmicos pra ganhar bolsas, por isso, sempre está com bolsas feias. Usa meias roxas e a maioria das pessoas olham ela passar, não por ser bonita, longe disso, mas por ser estranha e ter um nariz torto. Um nariz italiano, mas torto.

É vazia – so empty. Gosta de expressões inglesas. Ama o espanhol e não entende coisa nenhuma do francês. Só sabe o nome do rio que passa por Paris. Karen (ou kelen, ou você mesmo) tem mãos pequenas. “[…] ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas […]”

Não entende de amor, nunca ninguém ensinou nada sobre isso pra ela. Acha que amor, o bom amor mesmo, é soltar puns na cama. Antes, a ausência de sentimento a incomodava. Hoje, ela aprendeu a conviver com a frieza (ou falta de ternura) que recebe. É comum, ela pensa. Somos todos apenas pedaços de carne pendurados. Somos bocas, somos bundas, somos coxas, não é? Não? Pensando assim, Cheiro do Ralo faz muito sentido. Todos os homens são apaixonados por pedaços, como no filme, uma bunda. Ainda pensando assim, Onorato – ou Alecrim, que frita a bunda da mulher pra comer, em Estômago, faz MUITO sentido, não é? O que Karen é? O que são todos? Tem tanta palavra no dicionário, mas quem descreve isso? Ninguém.

Nobody. Did you try? Did you want to try? No? You can’t.

A garota ouviu ontem, que para se apaixonar, para que alguém se envolva de verdade, a sério, a outra pessoa tem que valer a pena. Não sabe o que acha disso, só sabe que não concorda. A vida tende a ser irônica, quase sempre, pelo menos. E que a pessoa que vale a pena, nem sempre é a que interessa. Quem aguentaria passar tempo perto de alguém tão bom e perfeito? E os puns na cama, onde ficam? As métricas nem sempre são interessantes. Mas ok. Levando em conta que todos esperam a pessoa que “valha a pena”, quem vai achar que ela vale? Quem vai acreditar? O que analisam? O que é levado em consideração? O que vale a pena pra um, nem sempre vale pra todo mundo. Se todos se apaixonassem pelo menino tímido da biblioteca, que lê superinteressante e usa all star, as coisas estariam difíceis pra todas as Karen. Ou Kelen. Ou você mesmo. É melhor pensar que tudo é um puto dum caledoscópio, que gira, gira, gira… E que é todo mundo engolido por ele. Pelas sombras, pelas pessoas, todos engolidos por essa… roda viva que carrega o destino pra lá.

 Karen não é ninguém.

É só uma personagem…

Ou não, mas quem sabe?

Adeus, Jurandir, sua cidade é longe demais pra eu achar que você valha a pena..

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Na moda?

Aline e eu pela primeira vez em um blog de moda.

Visitem: http://oitovidas.com/as-beldades-da-noite/

De Anaïs Nin, In. Diário II

Il Camorrista

É o papel de Fred, inconscientemente, envenenar minha felicidade. Ele enfatiza as incongruências do amor de Henry. Eu não mereço um amor pela metade, diz ele. Mereço coisas extraordinárias. Mas o meio amor de Henry vale mais para mim do que todos os amores de mil homens.

Imaginei por um momento um mundo sem Henry. E jurei que no dia que perder Henry, eu matarei minha vulnerabilidade, minha capacidade para o verdadeiro amor, meus sentimentos, com a devassidão mais frenética. Depois de Henry não quero mais amor. Só foder, por um lado, e solidão e trabalho, por outro. Nada mais de mágoa.

Depois de não ver Henry por cinco dias por causa de mil obrigações, não pude suportar. Pedi a ele para se encontrar comigo durante uma hora entre dois compromissos. Conversamos por um momento, então fomos para um quarto do hotel mais próximo. Que necessidade profunda dele. Só quando…

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Bobeirinhas
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