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Cinquenta Tons – Resenha crítica.

É um pouco difícil admitir que cedi a tentação de ler os livros da saga Cinquenta Tons. Fiz isso porque, como aluna de Letras, acredito na necessidade de estar por dentro do que acontece nesta Literatura Universal aclamada por jovens (não apenas jovens) nos dias de hoje.

Além disso, devo confessar que a curiosidade pesou muito no momento em que vi os burburinhos na internet e a grande repercussão que gerou. Prova disso, é que o livro de E L James recebeu diversos prêmios, vendeu mais de 10 000 000 de livros nas seis primeiras semanas e, ultrapassou assim, Harry Poter e Código da Vince no Reino Unido. Como não querer bisbilhotar o que acontece nessas páginas depois de todos esses números? Então, peguei os livros e comecei a tarefa.

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A história nada mais é que uma mocinha, Anastacia Steele, virgem, universitária, pobre e tímida que conhece Christian Grey, um sadomasoquista mandão, problemático e, sobretudo, bilionário. Ana se apaixona pelo Dominador e então começam as negociações para que ela torne-se sua Submissa. No entanto, durante esse entendimento, Steele quer algo mais, algo além da pancadaria e orgasmos estranhos. Ou seja, ela quer tocar o intocável Grey, entende-lo, curá-lo, trazer de volta a vida. Dar amor pra sarar todas as feridas! (NÃO! Não estou exagerando, é exatamente esse clichê que está nas páginas dos aclamados best-sellers!).

A negociação, então, é deixada de lado, já que o imprevisível Cinquenta Tons (apelido que Christian se dá) quer experimentar o desconhecido com a inocente Ana. E assim, o relacionamento deles se desenvolve. Ops! Não se desenvolve, o livro não se desenvolve, a escritora não desenvolve, Ana não desenvolve, NADA desenvolve neste romance.

O livro começa e termina com o mesmo conflito. Ana pirando com as ex-submissas do suposto namorado/marido/amante/espancador/dominador, Sra Steele tentando entende-lo, seduzi-lo, impressioná-lo etc. E Christian mandando, tendo ciúmes, gastando rios de dinheiro com ela, interferindo na vida de todos, maltratando funcionários e fazendo com que Ana se alimente bem.

Existe uma falta de coerência e coesão neste livro, que até eu, que não sou a minha professora de Lingüística, consegui perceber. Não há desenvolvimento, como já disse, a obra não traz novos acontecimentos, não há progressão! É triste, mas chega um momento, que a autora não possui mais ideias sobre o que fazer para que haja ação, então ela começa a colocar a troca de e-mail entre os personagens para “matar” tempo, ou seja, os dias são retratados através de curtos e-mails para que a trama se desenrole e o momento certo para algum acontecimento plausível chegue.

 Ah, e claro, além de tudo, temos o sexo.

O tal do sexo presente no livro é algo um tanto utópico e ilusório. Tudo bem, existem os gostos e práticas sexuais e cada um vive na sua com isso, mas a tal Anastacia Steele e o lindíssimo Grey são insaciáveis.  Existe o romance, o conto na história, no entanto o que preenche a média de 500 páginas de cada livro é o velho sexo. É tanto, que o leitor sente-se cansado com toda aquela baboseira de açoite, chicotes, algemas, bolas de metais, não-sei-o-que anais, orgasmos, gemidos e rapidinhas. A verossimilhança passa longe desta obra, até porque ela não existe aqui, já que não só de sexo vive o homem (bom, eu gosto de pensar assim!).

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O drama que a Ana causa a respeito disso tudo é gigantesco, tanto que é compreensível os tapas que ela recebe! Ela passa os livros decidindo se gosta ou desgosta das práticas do parceiro, então, durante toda essa descoberta, ela passa chorando, emagrecendo, bancando a revoltada e dando pro irresistível Chris.

O verbo “dar”, nesta conotação empregada, me lembra que a linguagem utilizada no livro é chula, digna de contos eróticos que circulam pela internet e isso me aborreceu muito. Não li a cópia original, então não sei se atribuo este defeito às tradutoras ou à autora mesmo.

Bem, vocês devem estar se perguntando “onde a Renata quer chegar com essa crítica ao sexo, já que a obra é erótica?” Sei que é um conteúdo adulto, sei que o propósito desta produção é o de excitar leitoras que já perderam o fervor, ou alimentar a curiosidade das ninfas, ou mostrar o que o amor e o sexo incondicional é capaz. Sei disso. Mas, mesmo com o meu escasso conhecimento sobre literatura erótica, tive contato com autores que merecem e são dignos do título que levam à respeito de suas obras. Henry Miller e Anaïs Nin são grandes exemplos disso.

Além de tudo isso, há também o machismo espreitando, pairando em todo o decorrer da obra. Aqui é pregado que as mulheres só se sentirão satisfeitas quando encontrarem o homem rico, que “cuida” do que é seu, que “trepa com força” e, sobretudo, tenham uma carreira sucedida e, posteriormente, sejam donas desse local, com a ajuda do macho. Já que é isso o que acontece. Tudo o que a Ana tem/recebe/adquire/come/escolhe/vive/faz é porque o Machão deu ou proporcionou. Nada é dela, nada é conquistado por mérito próprio. Já o cuidado demonstrado por Grey é resultado da sua falta de confiança nas fêmeas. Ele acredita que a pobre Ana nem alimentar-se sozinha é capaz (o que é retratado no livro como não sendo mesmo!).

Por fim, me pergunto, por que esta obra, apesar de todos os defeitos que consigo apontar (e alguns outros que não vou por aqui, até porque tem uma grande carga psicológica, já que o Mr. Grey sofre de síndrome de Édipo) fez e, ainda faz, tanto sucesso entre a mulherada? Só consigo pensar em uma coisa: A carência. A maioria quer um doido, rico e apaixonado Grey perseguindo seus calcanhares. A volúpia, a lasciva, o jogo… É o que esperam da vida. É o que cobram de seus parceiros. Eu acho isso triste, porque os fatos só comprovam o quanto nossa sociedade está vazia e muito impressionável.Image

Muitos me diriam, “ok, Renata, mas esse livro veio para suprir a demanda dos que gostaram da Saga Crepúsculo” e eu discordarei disso. Afinal, apesar de não ser fã dessa saga, é notório que é bem escrito, há progressão, verossimilhança e a história consegue manter os leitores ávidos pelo próximo livro. O que nos Cinquenta Tons não acontece, pois no terceiro livro eu já estava pensando seriamente em suicídio.

Para fechar, o que muito me alegrou, esses dias, foi abrir uma página de notícias e ler que o nosso querido Paulo Leminski, poeta curitibano, conseguiu superar a trilogia, aqui comentada, na lista de mais vendidos da Livraria Cultura. (Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/livros/2013-03-21/paulo-leminski-bate-cinquenta-tons-de-cinza-em-lista-de-mais-vendidos.html Acesso em: 22 de março de 2013). Sinal de que, talvez, as coisas não estejam tão perdidas assim.

(as imagens foram retiradas do Google)

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fernando pessoa

curta, curtinho.

E hoje, como tenho um banho de chuva e frio me esperando as 17:45 h, vamos de curta pra tentar melhorar o ânimo. Esse curta, MARAVILHOSO, descobri alguns anos atrás no ohpera blog. Bottle, feito por Kirsten Lepore, é a história de um floquinho de neve e um montinho de areia que se apaixonam. Assistam:

Quem puder, confira os outros curtas da Kirsten nesse canal. É legal ver o Making of “Bottle”  também!

Jacques Brel

A canção que escolhi pra postar hoje, foi escrita por Jacques Brel, grande autor de canções, compositor e  cantor. Além disso, teve fortes ligações com o cinema francês também. La canción, foi escrita no decorrer da sua separação com Suzanne Gabriello e então publicada em 1959. Para ele, a música retrata, sobretudo, a covardia do homem e não o amor. No entando, a interpretação dele é tamanha, que o nosso envolvimento no decorrer do vídeo torna-se inevitável.

Jacques Brel,teve uma vida de sucesso, no entanto ele afirmava que tudo isso se dava ao fato  que  seu talento vinha da “vontade” de fazer alguma coisa, e não a habilidade em si.

O video comprova que “Jacques foi um autêntico virtuoso do palco, onde por vezes usa a sua inseparável guitarra. Ele canta e interpreta com o corpo todo  e com toda a sua alma. Ele transborda com as suas histórias e os seus personagens como só pode fazê-lo uma profunda sinceridade, a sua maneira de se entregar ao seu público e a perspicácia do artista.  Brel não só canta, e canta muito bem, como compõe também e com uma mestria admirável, mas, de maneira superior, ele interpreta as suas canções com um talento incomparável.” Sendo assim, Brel consegue conquistar admiradores de forma incondicional. Tanta admiração que maduro como artista recebe um elogio que “vem exactamente da intérprete francesa mais admirada, Edith Piaf, que depois de assistir a um espectáculo, disse: Ele vai até ao extremo das sua forças, porque a canção é o que o faz falar da sua razão de viver, e cada frase acerta-nos em cheio e deixa-nos um pouco grogues.”

Devemos concordar, cara Piaf!

 Pra quem se interessar pela vida e obra desse “espírito nómade”, segue alguns links que selecionei:

last.fm – além das informações (biografia), aqui é possível encontrar imagens, vídeos, álbuns, cantores semelhantes, ouvintes, etc.

brel-autrementdit.voila – biografia com objetivo de apresentar o artista Jacques Brel, trazendo citações, filmografia, discografia, etc.

biografiasyvidas – biografia em espanhol.

“I hope the leaving is joyful; and I hope never to return.” (Frida Kahlo)

um quadrode Frida Kahlo (1907-1954) que acho particularmente perturbador. A perturbação só aumenta quando sabemos da história de vida da pintora mexicana, que, se foi repleta de experiências intensas e ocorrências pitorescas, também não teve escassez de amargores e feridas. Frida teve a coluna seriamente lesionada, na juventude, num acidente de ônibus. Não ficou paraplégica por um triz. Anos depois, teve que ver aquele que seria seu primogênito no formol: feto abortado de uma mãe que nunca se tornaria. Mais tarde na vida, um de seus pés, gangrenado, precisou ser amputado.

Naquela obra perturbadora de que eu falava, Frida pinta seu corpo cravejado por pregos, enquanto seu rosto, com uma expressão extremamente grave, é banhado por lágrimas torrenciais. As célebres sobrancelhas contínuas desenham quase uma gaivota sobre seus olhos. No local onde deveria estar a coluna vertebral, ela pinta, fazendo uma metáfora visual extremamente poética (e extremamente dolorida), uma dessas colunas de concreto greco-romanas concebidas para sustentar altos edifícios – mas ela está arruinada, roída pelo tempo ou por algum terremoto. A tristeza por sentir que seu alicerce está em ruínas, que sua própria coluna não mais a sustenta de pé, extravasa de seu mundo interior, incontenível como uma tempestade, e carrega o canvas com angústia.

“Mas pra que preciso de vocês, pernas, se tenho asas que me permitem voar?” – tenta ela consolar-se. Mas antes de morrer, pede que seu corpo seja cremado e escreve: “I hope the leaving is joyful; and I hope never to return.” Ao modo budista, ela possui apenas a esperança e o desejo de que não exista renascimento e que este corpo tão dolorido possa encontrar seu descanso eterno nas tranquilas pradarias do nada.

Frida, porém, não é uma mulher do queixume, da histeria, da lamentação estéril. Sua vida transposta para o cinema também aparece repleta de excitação, ousadia, experimentação, exuberância e beleza. Não há nada de Maria do Bairro naquela mexicana cheia de vitalidade e espírito, que sabia enxugar uma tequila, cantar e dançar nos cabarés e chegou a experimentar aventuras sexuais das mais variadas, das lésbicas às extra-maritais, das inter-raciais às entre-gerações, chegando a ter inclusive o Trotsky em sua cama.

Se há algo de heróico neste destino, talvez esteja principalmente no fato de que esta é uma mulher que não se deixou desanimar pelos golpes brutais que a vida lhe impôs sem que ela os merecesse. Eis o mundo, algo que fere inocentemente, que mata sem culpa, que machuca sem querer, e não há como viver uma vida plena sem o reconhecimento destas múltiplas (e sublimáveis) imperfeições dele.

O mundo pode até nos rasgar a carne e nos levar uma perna, mas a dor que sentimos não nos condena ao silêncio, nem necessariamente implica na morte do humor: podemos expressar a dor, ou mesmo rir dela, e, com isso, tornar sublime ou deleitável o que talvez, se nos calássemos, não passaria de uma triste aquiescência diante da bruteza de uma Natureza indiferente. A arte de Frida, me parece, é ao mesmo tempo um protesto e uma celebração da condição humana: um protesto diante da dor imerecida, do sofrimento dos inocentes, das injustas feridas infligidas por forças brutas; mas também uma celebração da “pulsão de primavera” que faz com que nasçam flores na terra onde depositamos nossos cadáveres.

Crianças futuras vão brincar entre as flores dos jardins sob os quais nossos ossos vão estar a descansar.

Há uma cena que acho particularmente emblemática no filme de Julie Taymor e que, me parece, passa a essência de Frida Kahlo: Diego Rivera, tempos depois de conhecer sua futura esposa, quando estão prestes a fazer amor pela primeira vez, é alertado por Frida: “tenho uma cicatriz”. Pode-se notar na expressão de Salma Hayek a apreensão, a temerosa ansiedade, enquanto ela vai sendo despida e aguarda o olhar de Diego e a resposta afetiva que o acompanhará. Diante de uma cicatriz, as mais variadas respostas emocionais podem emergir, a maioria delas, imagino, desprazeirosas: uma certa “repulsa” diante do espetáculo da carne macerada, ou uma certa angústia frente à uma prova viva da fragilidade dos corpos e das marcas que os choques e acidentes podem deixar permanentemente nela, ou um calafrio ou arrepio de temor típico de quem imagina “ah! se acontecesse comigo…” Diego Rivera, porém, beija a cicatriz de Frida Kahlo e lhe diz que ela, Frida, é perfeita. Não é à toa que estes dois destinos se entrelaçaram tão intimamente, apesar dos percalços, do divórcio, das tretas, dos estranhamentos: não é qualquer dia que encontramos alguém que nos beije as cicatrizes e que saiba amar-nos como somos, com todas as imperfeições incluídas.

A arte de Frida nos convida a amar o imperfeito, compadecer dos sofrimentos imerecidos, ajudar os camaradas em apuros, marchar nas ruas ao lado dos oprimidos e celebrar, aqui-e-agora, os poderes criativos destes mortais que somos enquanto não nos tornamos ainda os mortos que seremos.”

por Eduardo Carli – originalmente publicado no Esteticoscopio

vamos de música, achado do dia.

Caetano Veloso e Odair José em 1973.

Gravado ao vivo no Phono. Como não gostar?

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