roy wagner – a invenção da cultura

“A relação que o antropólogo constrói entre duas culturas e em consequência as “cria” para ele – emerge precisamente desse seu ato de “invenção”, do uso que faz de significados por ele conhecidos ao construir uma representação compreensível de seu objeto de estudo. O resultado é uma analogia, ou um conjunto de analogias, que “traduz” um grupo de significados básicos em um outro, e pode-se dizer que essas analogias participam ao mesmo tempo de ambos os sistemas de significados, da mesma maneira que seu criador. Eis a mais simples, mais básica e mais importante das considerações a fazer: o antropólogo não pode simplesmente “aprender” uma nova cultura e situá-la ao lado daquela que ele já conhece; deve antes “assumi-la” de modo a experimentar uma transformação de seu próprio universo. Da perspectiva do trabalho de campo, “virar nativo” é tão inútil quanto permanecer no aeroporto ou no hotel fabricando histórias sobre os nativos: em nenhum dos casos haverá qualquer possibilidade de uma significativa relação (e invenção) de culturas. É ingênuo sugerir que virar nativo é a única maneira de alguém “aprender” efetivamente outra cultura, pois isso exigiria abrir mão da sua própria cultura. Assim sendo, já que todo esforço para conhecer outra cultura deve no mínimo começar por um ato de invenção, o aspirante a nativo só conseguiria ingressar num mundo criado por ele mesmo, como faria um esquizofrênico ou aquele apócrifo pintor chinês que, perseguido por credores, pintou um ganso na parede, montou nele e fugiu voando!”

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