como plumas

Tag: desabafo

Uma música na rádio, hoje.

Nem preciso dizer que hoje o dia foi estranho, né? Porque foi isso que foi. Definitivamente.

Terminei a primeira temporada de The Borgias. Minha sobrinha nasceu. Ou melhor, a filha da minha cunhada nasceu [algumas pessoas entenderão]. Recebi uma declaração bonita e um pedido de casamento não aceitável. Faltei à aula, porque não estou preparada, ainda, para o final do ano letivo de 2015. Estou terrivelmente cansada e fatigada e enjoada de todo o lance que já recebi e ainda terei que receber e já desempenhei e ainda terei que desempenhar, na universidade. Não comi, já que, estranhamente, não estive com fome. Chorei o suficiente para abastecer um litoral artificial. Me perdi em ruas conhecidas. Não olhei nos olhos de quem normalmente olho, pelo simples fato de não saber lidar com a emoção, naquele momento. Fumei cigarros furtados. Fingi orgasmo, mas proporcionei um orgasmo. Corri, como o Forrest, atrás dos meus anos perdidos com um amor perdido. Lamentei. Me arrependi por isso. Fiz planos faraônicos para conseguir dar continuidade na minha vida romana. Pensei em nomes bonitos, para os meus filhos inexistentes e que nunca existirão. Procurei um ginecologista, que quisesse me olhar e me salvar da ardência desses dias, porém não encontrei. Passei frio, nesse dia quente. Meus pés congelaram e permaneceram imóveis, quando eu precisei fugir. Perdi o rebolado, no instante que eu percebi que a minha dança não agradava mais. Fiquei lubrificada, mas perdi o tesão. Percebi, assim, que sexo oral, não faz meu estilo. Percebi também que quero a luxúria dos personagens de Almodóvar, quero a violência dos filmes do Tarantino e toda os problemas psíquicos e dramáticos e existenciais do Lars. Saí do manicômio, da minha vida, para me deparar com o desespero familiar. Ouvi música, no som do carro, enquanto eu roía as minhas unhas roídas. Me encontrei na música, que, apesar de não tê-la ouvido anteriormente, resolveu me entender.

Vespas Mandarinas, Não sei o que fazer comigo.

Sobre a música: (Roberto Musso / versão: Chuck Hipolitho / Thadeu Meneghini) – Originalmente gravada por El Cuarteto De Nos (Ya No Sé Qué Hacer Conmigo) no disco Raro de 2006. Produzida por Rafael Ramos para o disco Animal Nacional – Deck 2013.

Belchior e eu

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Tenho uma relação meio estranha com músicas. Sempre quando alguém me pergunta: “o que você gosta de ouvir?”, eu já começo a babar, porque nunca sei o que responder. Não sei dizer o motivo disso acontecer, até porque música faz parte do meu dia, seja no trânsito, seja em minha casa ou na casa de um amigo, mesmo na trilha sonora de um filme eu tenho contato com o mundo musical, só não me ligo, como me ligo em um filme ou em um livro, por exemplo. Você acha estranho? Eu também acho, mas eu não deixo meu cigarro apagar em dias de tristezas, já que sempre é dia de ironia em meu coração. Reconhece esse trecho? É uma paráfrase do Belchior. Cantor que estou ouvindo agora, enquanto bebo um café e penso se volto a dormir ou não.

A chuva caí. Você ouviu? Por força desse destino, um tango argentino me vai bem melhor que o blues.

O que eu queria mesmo era estar na Argentina, hablando na língua dos argentinos, tomando um café argentino e comendo um alfajor pra rimar com Belchior. Pra rimar com minha vida. Comigo. Preciso de rimas, preciso de construções frasais com sujeito e predicado, para me complementar. Preciso me sentir completa. Preciso. Como? Não faço ideia. Só sei que preciso.

Já devo ter dito que gosto mesmo é de fluxo de consciência. Já disse, né? Para reforçar: gosto muito de fluxo de consciência. A dificuldade que tenho é que meus dedos não conseguem acompanhar o meu trem do pensamento (já assistiu divertida mente?). Ele passa piuipiui e não consigo escrever tudo o que ele traz, aqui. Isso acontece, porque minha mente funciona em vários ritmos, ritmos que não sei nomear ou seguir. Encontro uma placa. Paro. Continuo. E descambo serra à baixo.

É sempre assim.

Queria ser um escritor tipo Kafka. Acho que assim eu conquistaria as pessoas, né? O que me falta é um bom domínio das palavras. O poeta sempre consegue o que quer, não é? Eu sei que o Kafka não é poeta, ele está mais pra contista, mas quis falar de poeta, falei. Porque faço isso, tenho vontade, boto ela pra fora. Isso funciona comigo, funciona com você? Espero que sim. Só não coloco pra fora meus desejos, aí o mundo não resistiria, certo? Veja o Neruda, veja o Camões, eles sempre conquistaram as muchachas com um poeminha escrito, não sei, no guardanapo de papel, melecado de óleo da coxinha do bar. Sempre conquistaram. Até eu seria conquistada com todo esse amor. Camões abandonou a mulher amada, para salvar os lusíadas, naquele naufrágio, lembra? Então, aí depois disso, ele escreveu aquele soneto dedicado à pobre moça morta e ficou tudo perdoado. Tudo ficou lindo e todo mundo amou a amada morta (não salva pelo amante poeta), só pelo poema dedicado a ela. Justo isso? Eu não acho, mas quem sou eu na fila do pão pra questionar o poeta português e suas escolhas? Não sou ninguém mesmo.  Só eu acho Camões egoísta? Queria mesmo um cigarro. Sim, ele foi egoísta. Salvou o que lhe renderia sucesso e deixou uma vida UMA VIDA padecer no meio do mar. Por que? Porque ela não renderia dinheiro. O amor não vale nada. Desde dos séculos passados, o amor é um falido. Não enche a barriga de ninguém mesmo. Pra que nos serve? O amor é um sentimento de rico. Um adereço de luxo. Um adorno para pendurar no pescoço e dizer: eu amo. Ama? Pobre criança, comemore o dia 12, porque isso é o que você terá de felicidade. Amando ou não. Ouvindo músicas ou não.

Roteirize

Não tenho entusiasmo, não sou poesia. Isso deveria me incomodar, mas não incomoda. Gosto de quem sou, quem me tornei. Com o tempo aprendi a gostar. Como desgostar se sempre serei minha companhia. Vejo que um dia estarei sentada, no café de sempre, bebendo o suco de sempre, fumando o cigarro de sempre e sozinha como sempre. Isso deveria me incomodar, mas não me incomoda. Não penso nisso como algo ruim. Sou chata. Por dentro, só tenho órgãos. Sinto que vivo em um filme, só não decidi ainda qual seria o diretor. Almodóvar, Lars, Godard, ou… A minha única exigência é poder escolher o figurino. Me vestiria como a Summer ou/e personagens semelhantes a ela. Teria desfechos semelhantes ou teria desfechos inconclusos, porque eu sou assim: pura falta de fim. Isso deveria me incomodar, mas eu deixo para lá.

A deriva

Uma amiga sempre me diz: escreva, sua tristeza passará. Um amigo, por sua vez, sempre me diz: não se exponha e pare de roer unhas, você faz isso com muita frequência. Já outra amiga sempre me diz: vomite, escove os dentes e fique limpa.

Não tenho como contestar, já que todos eles têm razão. Tenho grandes amigos e eles me conhecem bem, pelo visto. No entanto, apesar de todos os conselhos e instruções de como me manter a deriva (ou respirando), eu ainda não sei qual é o segredo para a sanidade. Ainda não sei quando escrever, não me expor ou vomitar fará todas as angústias e adeuses e vazios e esperas saírem para fora de mim. Parece um parto, mas não é. É só a busca pelo desapego do que acumulei durante meu grande e velho percurso de vida.

Costumo escrever? Não costumo. Infinitas pessoas já fizeram isso antes de mim, infinitamente melhor. Infinitas pessoas continuarão escrevendo depois de mim e também serão melhores. Apesar disso, por que justo hoje estou tentando?

É tédio? Não é, porque, mesmo que a vida não tenha sido tão generosa, o tédio não tem me encontrado com muita frequência. Penso que minha mente é como milhares de redes que se conectam e funcionam mesmo quando eu quero só dormir. Então, caso o marasmo apareça, meu cérebro me mantem ocupada. É preocupação? Um pouco. Milhões de coisas passam por mim e me causam dor no estômago. Talvez quem me olha, mas não observa, pensa que sou serena. Não sou serena. Sou um amontoado de conflitos e dilemas e divagações e medos que me fazem perder o sono e, em algumas vezes, a vontade de tentar seguindo. Isso pode ser assunto para um outro dia, até porque, preciso chegar no tópico que quero. É a falta? Talvez, pode ser, quem sabe? Sinto mais falta de pessoas objetos animais tempos passados chocolates que comi bebidas que bebi lugares que visitei do que sou capaz de mencionar.

Hoje, em específico, após ouvir uma música do Oasis no rádio, ao voltar de uma conversa pesada com um amigo querido, lembrei de várias situações que já passei com essa trilha sonora. Teve aquela vez, por exemplo, que beijei o menino desconhecido, da cidade desconhecida, no palco do bar desconhecido. Beijei, entrei numa nave espacial, que algumas pessoas chamam de carro, e tive uma noite surpreendente. Só que, além dessa lembrança (velha), tive uma lembrança (nova), sobre um rapaz que me envolvi (pouco ou muito, não sei dizer, acho que o suficiente para me fazer escrever) que gostava dessa banda.

Eu estava em um turbilhão. Estou em um turbilhão com dores de cabeça, o que me levou a pensar: Por que os rapazes mexem tanto comigo? Por que me envolvo tanto? Por que sinto de uma forma tão pungente? Por que dispenso energia na procura de respostas às questões tão insignificantes.

Isso me irrita.

Confunde.

O que percebo é que relacionamentos, na sua maioria, são redundantes, um ciclo de começo, meio e fim. Um consenso feito entre duas pessoas que topam se envolver, sabendo que não ficarão juntas, que o fim estará próximo e que o contato será efêmero. O sofrer está previsto desde o início de todo o envolvimento, contudo, pagamos para ver. Porque a vida é isso: pagar para ver. Onde vai dar? Ninguém nunca tem a resposta ou o roteiro para nos passar. O que podem dizer é o famoso run, Forrest, run. Temos os amigos, os pais, os irmãos e o cachorro para nos dizer o caminho que devemos tomar para sofrer menos, viver mais. Ser feliz. Entretanto, o indicado, ainda não é resposta. A intenção é amenizar. Sarar. Fazer passar. E só.

Cansei de pagar para ver. Cansei da vida? Talvez. Estou em um caleidoscópio, que, conforme gira, vou junto. Participo da roda. Fico enjoada com as piruetas. Relacionamentos me enjoam. Algumas atitudes masculinas me enjoam. Vivo em uma era que cultuar o descartável e a indiferença é o que há. É a sensação do momento, uma sensação que me desconforta.

 Apesar disso, eu insisto. Insisto. Persisto? Só existo. Não quero me afogar.

desabafo da vez.

Hoje estava notando, todos que tem máquina fotográfica ou o instagram agora são fotógrafos e, claro, amam e entendem essa arte.
Escrevem uma droga dum poema e já são escritores literários, conhecedores dos clássicos e críticos e o escambau.
Assistiram um filme do Tarantino e um do Woody Allen e conhecem The Dreamers, pronto, já estão fazendo discursos sobre o que é bom e o que não é na sétima arte.
Van Gogh? Ah, fácil de ser superado.
Quanto mais desconhecida a banda musical, melhor é, claro! É lindo dizer o nome e deixar as pessoas com cara de: “WTF? De onde saiu isso?”
Machado de Assis? Ah, caralho, já leram todos os livros dele e, assim, fácil fácil, sabem narrativa decoradinha! Mas claro, é preciso contar isso pra todos pra pagar de pseudo-bom.

Sabe o que acho? Devo ser muito idiota mesmo, mas muito, ou as pessoas estão impressionáveis demais. Vão se imortalizar gente, vão lá, ser o Mozart da vez ou o novo Godard. É fácil, basta não ter vergonha na cara e fazer as pessoas engolirem toda essa merda. Sejam os sofistas da vez e pendurem os seus livros Dostoievskiano no pescoço e encham a boca pra dizer: “caralho, eu li, entendi e sou lindo, muah!*:”

Me desculpem, mas conhecimento é bom? Sim, é. É essencial, mas humildade, ah… a humildade, isso sim é uma virtude.

E aprendam, gente, ser simples que é complexo.

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