como plumas

Tag: língua

resumo, a língua de eulália – parte 4

FENÔMENOS DECORRENTES DA ANALOGIA

 Analogia é um fenômeno que sofre a mesma “mania” que a assimilação, a diferença é que a assimilação tenta tornar semelhantes coisas que estão próximas. Já a analogia ao falar algo, ela “sopra”nos ouvidos algo parecido que se mistura com o que ia ser dito, escapando assim, uma nova forma, ou seja, analogia é a “mudança lingüística causada pela interferência de uma forma já existente”.

Substantivos: o almoço, o apego, o carrego, o choro.

Verbos: eu almoço, eu [me] apego, eu carrego, eu choro.

Antigamente os substantivos usavam acentos circunflexos, usados para diferenciar, na escrita, a vogal fechada da vogal aberta. Sendo assim, a analogia transformou substantivos: em: o espêlho, o estôro, o fecho; e verbos em: eu espélho, eu estóro, eu fécho.

O grande prazer da analogia é o de eliminar as exceções e criar regularidades, fazer com que o maior número possível de fenômenos da língua se enquadre em regras eficientes. Uma dessas regras por exemplo é a que diz: substantivo = vogal fechada/verbo = vogal aberta, então a analogia aplica essa regra em grande quantidade de casos, fazendo diversas pessoas falarem eu planéjo, eu veléjo, eu alméjo, eu bocéjo… Essa regla de vogal fechada/vogal aberta também existe na relação adjetivo/verbo, como por exemplo, em estou seca/ela seca, estou solta/ela solta.

EXCESSO DE CORREÇÃO

No português padrão existem verbos que admitem dois particípios passados, sendo um deles em forma mais reduzida, como por exemplo, aceitado ou aceito, entregado ou entregue, ganhado ou ganho, gastado ou gasto, pagado ou pago… No entanto, devido pressões escolares, surgiu uma “lei” dizendo que só se pode usar, com esses verbos, o particípio irregular, ficando “ela tinha aceitado”, “ela tinha entregado”, “nós temos pagado em dia”, mas o uso das duas formas é correto.

Logo, a analogia faz com que muitas pessoas apliquem a regra aos verbos trazer, chegar e mandar, produzindo frases do tipo: “ele já tinha trago o livro que pedi”, “quando eu saí, você ainda não tinha chego”, “se você tivesse mando o que lhe pedi…” Esse caso de analogia recebe o nome de HIPERCORREÇÃO, ou seja, o excesso de correção, que é o erro na tentativa do acerto.

Já no português não padrão, a analogia surge para criar novas formas regulares nos verbos onde, para a norma padrão, só é admitido com o particípio irregular, por exemplo:

Padrão: aberto, coberto, dito, escrito, feito

Não padrão: abrido, cobrido, dizido, escrivido, fazido.

Outra característica no PNP são os verbos pôr e frigir, onde a analogia agiu criando para pôr, o infinitivo ponhar. E para o verbo frigir, o infinitivo fritar, “eu frijo batatas no óleo quente” tornou-se “eu frito batatas no óleo quente” restando para o verbo frigir a única expressão: “no frigir dos ovos”.

 UM SÓ PADRÃO, MAS INÚMERAS VARIEDADES

Não existe uma única variedade não padrão, na verdade, existem muitas, e dizer quantas é até impossível, já que, para definir bem uma variedade é necessário levar em conta um número grande de elementos lingüísticos e sociais, já que cada falante tem “a sua língua”. Ao ser falado em PP e PNP, o que acontece é a tentativa de reunir sob esses rótulos, as regras que constituem a chamada norma-padrão e as características comuns às variedades consideradas não padrão.

Não existe uma variedade padrão, porque ao se referir a uma variedade de língua, é necessário também, se referir aos seres humanos que falam essa variedade.

Existe um conjunto enorme de regras para o uso da língua eu compõem uma norma, um padrão de língua, mas na realidade não é uma variedade, pois ninguém obedece rigidamente a todas as regras prescritas, nem mesmo o mais culto, mais escolarizado, mais preocupado em controlar a fala e a escrita. Ou seja, o que existe são todas as variedades da língua e uma norma ou padrão, tornando assim, o padrão, apenas uma língua ideal, que serve como modelo abstrato do que é “bom” e “correto”. Sendo assim, as variedades da língua reais e concretas enquanto a norma-padrão é o ideal de uma língua, uma abstração, tendo as gramáticas normativas como molde (gramática essa que não basta ser ensinada na escola. É preciso definir de maneira democrática qual deve ser a norma a ser apresentada na escola).

Por fim, é necessário o ensino de uma norma padrão, mas de forma crítica, um ensino que mostre que essa norma padrão não tem, linguisticamente nada de mais bonito, de mais lógico, de mais coerente que as variedades usadas pelos falantes menos cultos ou analfabetos.

Anúncios

resumo, a língua de eulália – parte 3 (possíveis explicações para as variações)

FALAR DO JEITO QUE SE ESCREVE NÃO SIGNIFICA FALAR MAIS CERTO.

 Nas escolas é necessário ensinar os alunos de acordo com a ortografia oficial, no entanto, não pode ser feito de modo que seja criada uma língua artificial, reprovando pronúncias que são resultado natural das forças internas que governam o idioma, inclusive as variedades cultas.

A língua escrita é um conjunto de símbolos que podem ser interpretados de maneiras variadas. Também tem caráter simbólico, levando a ter uma forma certa para a escrita, mas na hora de produzir a fala, existe a marca pessoal na leitura.

CONTRAÇÃO DAS PROPAROXITONAS EM PAROXÍTONAS.

 Proparoxítonas são aquelas palavras cuja sílaba tônica é a antepenúltima, como por exemplo, árvore, córrego, fósforo, que ao serem pronunciadas no português não padrão, elas se transformam em, arvre, corgo, fósfro. Isso ocorre porque essas palavras sofreram uma contração, ou seja, um “encolhimento” para caberem no ritmo natural do PNP, que é um ritmo paroxítono. Até porque é imensa a quantidade de proparoxítonas latinas que sofrem essa transformação no português, que se deu pela aceleração do ritmo da fala, já que a língua ficou mais dinâmica, mais rápida. Devido essa aceleração do ritmo da fala, vogais que se encontravam depois da silaba tônica foram sendo pronunciadas cada vez mais fracas.

As proparoxítonas representam uma minoria na língua portuguesa, um exemplo disso, pode ser encontrado no Os Lusíadas, uma obra em língua portuguesa clássica onde só usou 5% de proparoxítonas em todo vocabulário utilizado no poema. Proparoxítonas são conhecidas também como ESDRÚXULAS, ou seja, algo esquisito, fora do comum e estranho.

DESANASALIZAÇÃO DAS VOGAIS POSTÔNICAS

Na língua portuguesa existe a tendência de eliminar a nasalidade das vogais postônicas, ou seja, o som nasal das vogais que estão depois da silaba tônica.

Palavras que eram no Latim: abdomen, volumen, regimen, nomen, hoje se transformaram em: abdome, volume, regime, nome. Então, por conta dessa mudança própria da língua, palavras como homem, ontem, Virgem e inúmeras outras terminadas em –agem (garagem, viagem, bobagem) ao serem pronunciadas como home, onte, garage, bobage, deve ser levado em conta que o falante dessa forma popular só está respeitando tendências normais da língua.

ARCAÍSMO NO PORTUGUÊS DO BRASIL

 Supostos erros que são vistos como algo predominante em língua de “gente ignorante”, na verdade são heranças muito antigas, vestígios de outros tempos, que recebem o nome de ARCAÍSMOS. Um exemplo disso são os verbos com A- (alembrar, ajuntar, avoar…) que pode ser explicado ao observar o Latim, onde havia a preposição AD que deu origem a preposição A, isso fez com que na formação da língua portuguesa surgisse uma grande quantidade de verbos com o prefixo A-. Mas, na tentativa de definir uma língua padrão oficial, os gramáticos decidiram eliminar da norma-padrão alguns daqueles verbos com esse prefixo. No entanto, como a maioria das pessoas não tinham acesso a leitura, escrita e a norma padrão, conservou esses verbos que chegaram ao Brasil através dos colonizadores.

resumo, a língua de eulália – parte 2 (possíveis explicações para as variações)

ROTACIZAÇÃO DO L NOS ENCONTROS CONSONANTAIS.

 Existe na língua portuguesa uma tendência natural em transformar o L pelo R dos encontros consonantais (Cláudia, inglês, globo, planta > Cráudia, ingrês, grobo, pranta). Esse fenômeno leva o nome de ROTACISMO. Quem diz bRoco em lugar de bLoco não é “burro”, não fala “errado” e nem deve ser visto como “engraçado”, até porque o indivíduo está apenas acompanhando uma tendência natural rotacizante da língua. Como por exemplo em Latim palavras como igLesia, pLaga, fLuxu, se tornaram igReja, pRaia, fRouxo em português.

Exemplo desse rotacismo pode ser encontrado em obras como Os Lusíadas, de Camões, que ora escreve inglês, ora ingrês. Em épocas como as de Alencar e Machado, existia a liberdade de escolher entre floco e froco, liberdade essa que é inexistente hoje, até porque, pessoas que “fazem uso” dessa variação, são as mais pobres, analfabetas, vivem nos piores lugares da cidade e não escrevem livros, fazendo com que essa língua seja considerada errada, feia, pobre… mas, como é possível notar, a língua dessas pessoas é coerente, segue tendências naturais e tem lógica histórica, sendo assim, o problema das pessoas não é propriamente lingüístico mas sim social.

UMA LÍNGUA ENXUTA, ELIMINAÇÃO DAS MARCAS DE PLURAL REDUNDANTES.

 É possível notar no PP, marcas redundantes de plural, ou seja, para indicar que é sobre mais de uma coisa que o assunto aborda, acrescenta-se “marcas de plural”, como por exemplo: “quero te dar as lindas flores amarelas que brotaram no meu jardim”. Essa marca de plural é a famosa concordância de número que é ensinado na escola.

Já o PNP é mais sóbrio, econômico, modesto e menos “vaidoso”, fazendo com que sua regra de plural seja a de marcar uma só palavra para indicar um numero de coisas maior que um, ou seja: “cheguei na bera do porto/ onde as onda se espaia” (Cutelinho, Nara de Leão).

É interessante notar que a regra de eliminação do plural não existe apenas no português não padrão, mas o inglês e o francês também apresentam regras semelhantes, como por exemplo: “my beautiful yellow FLOWERS died yesterday” e no Francês: “les belles fleurs jaunes qui poussaient dans mon jardin”. As marcas de plural no Francês só aparecem na escrita e nunca são pronunciadas, aparecendo apenas nos artigos: LA (singular) LES (plural), exatamente o que acontece no PNP que marca apenas os artigos.

TRANSFORMAÇÃO DO LH EM L.

 Diferente do que dizem sobre as pessoas falantes dessa variação lingüística, elas não são preguiçosas ao falarem trabaio, têia, até porque nessa variedade do português (não padrão) não existe o som consonantal LH.

 Uma boa comparação para isso seria com o Francês, que, por exemplo, onde é no PP abelha, no Frances é abeille e no PNP é abêia. Essa proximidade e comodidade de se pronunciar o I levaram a transformação. Esse fenômeno pode ser conhecido como ASSIMILAÇÃO.

 Outra explicação para essa transformação pode ser vista na famosa Revolução Francesa de 1989, que ao darem liberdade aos burgueses – que tinham a fala ridicularizada pelos aristocratas, houve o desaparecimento do LH para o I, que era um traço da variação deles.

UMA LÍNGUA RICA.

A educação no Brasil deixa transparecer a crença no mito de “unidade da língua portuguesa” e a necessidade de dar ao aluno aquilo que ele não tem, ou seja, uma nova língua. Ensinam em vez de educar já que ensinar e educar são dois verbos distintos. Ensinar vem do Latim in+signo, que significa “por um sinal em”, implica uma ação de fora pra dentro, implantar algo na mente de alguém. Já educar que vem de ex+duco, significa trazer de fora, tirar de, dar à luz, um movimento oposto ao de ensinar. Sendo assim, é necessário que os educadores tenham em mente que o português não padrão não é diferente do padrão, mas sim, igualmente lógico, estruturado e que acompanha as tendências naturais da língua.

SIMPLIFICAÇÃO DAS CONJUGAÇÕES VERBAIS.

 Pesquisadores que estudam os falares regionais e não padrões verificaram que de Norte a Sul do Brasil existe uma tendência generalizada a reduzir as seis formas do verbo conjugado em apenas duas. 

Eu amo
Você ama
Ele ama
Nós/a gente ama
Vocês ama
Eles ama

Por ser uma língua enxuta, que evita redundâncias, para essa variação basta a presença do pronome-sujeito (eu, tu, ele, nós…) para indicar a pessoa verbal. Ou seja, se a pessoa está indicada, a forma do verbo não precisa variar tanto para que o ouvinte compreenda de quem está sendo falado e em qual tempo verbal, provando assim, a funcionalidade do PNP.

No entanto, para a forma eu, o verbo se diferencia das outras pessoas, deixando claro, que, segundo a psicologia, o individuo tem a necessidade, mesmo que inconsciente, de deixar bem claro o limite do que diz respeito A MIM e o que diz respeito AO RESTO DA HUMANIDADE.

TRANSFORMAÇÃO DE ND – em – N e de MB em – M

 É comum ouvir pessoas falando: comeno, cantano, falano (ND em N) em vez de comendo, cantando, falando. Ou até mesmo quano em vez de quando, palavras com terminações NDO. Isso acontece porque os fonemas /n/ e /d/ pertencem a uma família de consoantes chamadas dentais (quando a língua toca levemente o céu da boca onde se encaixam os dentes de cima como ao dizer: nenê, dado), sendo assim, ao serem pronunciadas na mesma zona de articulação (mesmo lugar dentro da boca), essas consoantes sofrerão o ataque da ASSIMILAÇÃO, que nada mais é que uma força que tenta fazer com que dois sons diferentes, mas com algum parentesco, se tornem iguais, semelhantes. Essa força foi muito ativa na formação da língua portuguesa.

Esse fenômeno pode ser aplicado também nas mudanças de também que é pronunciado tamém e de um bocado que é pronunciado um mucado. (MB em M).

REDUÇAO DO DITONGO OU em O

Livros didáticos e gramáticas insistem em dizer que nas palavras pouco, roupa, louro existem ditongos, ou seja, o encontro vocálico em que as duas vogais são pronunciadas. No entanto, isso não acontece mais nem no português de Portugal, nem no Brasil, tanto padrão como não padrão. Isso acontece devido a assimilação, que insiste em tornar as duas vogais, A que é muito aberto e U muito fechado, semelhantes.

Como o PNP é uma língua muito ligada a oralidade, a regra histórica da redução do ditongo AU em O não deixou de ser respeitada, portanto, em certas palavras do PP que se escrevem com AU são pronunciadas com O em PNP. Um exemplo conhecido é sobre a palavra SAUDADE, que em muitas regiões do Brasil é pronunciada como SODADE. Pode ser visto na canção “Sodade, meu bem, sodade” do compositor Zé do Norte, que faz parte da trilha sonora do filme “O Cangaceiro”, dirigido por Lima Barreto em 1952.

REDUÇÃO DO DITONGO EI em E

 Com o ditongo EI ocorreu o mesmo que com o OU: uma monotongação, que quer dizer, dois sons que se transformam em um só. No entanto, a monotongação do ditongo EI só ocorre diante das consoantes J, X e R. (beijo > bejo, deixa > dexâ, cheiro > chêro), tendo a assimilação como modificadora.

 REDUÇÃO DE E e O ÁTONOS PRETÔNICOS.

 A língua escrita é apenas uma representação simbólica da língua falada e não um retrato fiel dela (até porque a língua voa, a mão se arrasta). Por isso, mesmo sendo uma ortografia de cada palavra para todo o país, cada falante brasileiro terá seu modo particular de pronunciá-la.

 Na língua portuguesa, quando as vogais E e O são postônicas (vem depois da sílaba tônica) sofrem o que é chamado de REDUÇÃO: elas são pronunciadas de forma mais fraca e soam como um I e um U. Por isso a palavra OVO é pronunciada ÔVU, e a frase: ELE BEBE é pronunciada como ÊLI BÉBI.

língua – caetano veloso

E para ilustrar bem esse assunto, nada melhor que essa música do Caetano Veloso.

minha pátria, minha língua.

resumo, língua de eulália – parte 1

Bem, como já dito, terei prova hoje (oral, diga-se de passagem) sobre o livro A Língua de Eulália de Marcos Bagno. Para melhor fixação, ontem fiz um resumo (famoso “catadão”, como diria minha mãe) do livro. E como estou com vontade, postarei aqui. Esqueci de pegar a bibliografia, mas depois coloco.

Então, vamos lá. Acho que vai ter errinhos e tal, mas como fiz pro meu estudo mesmo, relevem se houve (caso alguém ler, of course)

O mito e a realidade; o errado e o diferente; o eu e o outro

No Brasil, diferente do que muitos acreditam, não se fala apenas uma língua. Mesmo que exista diversas tribos de índios, comunidades de imigrantes estrangeiros, é possível afirmar que NÃO HÁ NENHUMA LÍNGUA QUE SEJA UMA SÓ. Ou seja, o que é chamado de português é um conjunto de coisas aparentadas entre si, mas que apresentam algumas diferenças. As “coisas” podem ser denominadas como VARIEDADES.

Essas variedades, por exemplo, podem se apresentar através da própria localização geográfica, ou seja, a variedade portuguesa, brasileira, do Norte, do Sul, carioca, paulistana… no entanto, além dessa variação, a língua pode mudar também ao ser falada por uma mulher ou um homem, por uma criança ou adulto, pessoa alfabetizada ou não, por uma pessoa classe alta, média ou baixa, morador da cidade ou o rural. Sendo assim, é notório que há diversas variedades, que são elas: geográfica, gênero, socioeconômico, etária, nível de instrução, urbanas, rurais, etc. Sendo assim, é como se cada pessoa falasse uma língua única, exclusiva.

Apesar dessas variações apresentadas, a língua também muda e varia com o tempo. A língua falada hoje no Brasil é diferente da que era falada aqui no início da colonização, e provavelmente, também é diferente da língua que será falada aqui nos próximos duzentos ou quatrocentos anos. Muda com o tempo e varia no espaço, recebendo nomes especiais para esse fenômeno:

  •  MUDANÇA DIACRÔNICA: mudança ao longo do tempo.
  •  MUDANÇA DIATÓPICA: variação geográfica.

Portanto, é possível afirmar que não existe a língua portuguesa, mas sim, um pequeno número de variedades do português, faladas numa determinada região, por determinado conjunto de pessoas, numa determinada época, que por várias razões, foram eleitas para servirem como base para a constituição, para a elaboração de uma NORMA PADRÃO.

NORMA PADRÃO

 A norma-padrão é o MODELO IDEAL de língua que deve ser usado pelas autoridades, pelos órgãos oficiais, pelas pessoas cultas, pelos escritores e jornalistas, é aquele que deve ser ensinado e aprendido na escola. A norma-padrão dá impressão de ser mais rica, mais complexa, versátil, no entanto, ela não apresenta nada de melhor que as variedades apresentadas na língua. Na verdade, o que ela apresenta de “mais” são as palavras eruditas, termos técnicos, vocabulário maior e mais diversificado. Mais construções sintáticas (modo de organização das frases, orações e as partes que as compõem) que são consideradas de bom gosto, expressões eruditas, metáforas clássicas com ar nobre, etc…

A partir do estabelecimento de uma norma-padrão, que significa prestígio social e importância, as outras variedades são tidas como impróprias, inadequadas, feias, erradas, deficientes, pobres… ou seja, o português não padrão.

PORTUGUÊS NÃO PADRÃO

O português não padrão (muitas vezes tido como a língua materna), é aquele que apresenta variedades de acordo com as diferentes regiões geográficas, classes sociais, faixas etárias e níveis de escolarização. Essa multiplicidade de variáveis do português não é reconhecida na escola, sendo assim, a norma-padrão é imposta sem levar em conta que para muitos alunos ou até mesmo todos, ela é vista como uma língua estrangeira. Além disso, o português não padrão é visto como uma língua “errada”, falada por pessoas intelectualmente inferiores, no entanto, ela é uma língua bem organizada, coerente, funcional e, o que na maioria das vezes é visto como “erro” no português não padrão, há uma explicação cientifica do ponto de vista da lingüística ou lógica, pragmática, psicológica…

Entre o português não padrão e o padrão existem algumas diferenças, já que o PNP é natural, até porque sua lógica de funcionamento segue as tendências naturais da língua, enquanto que o PP é artificial pelo fato de ser limitado, imposto pela padronização que dita regras para serem memorizadas e treinadas. O PNP é transmitido de geração para geração, compartilhado como patrimônio no convívio da família. Já o PP é necessário que seja adquirido na escola. As regras do PNP são apreendidas naturalmente pelo falante e no PP são aprendidas, decoradas, memorizadas, exigindo treinamento especial da parte do falante. O PNP é funcional porque elimina as regras desnecessárias e supérfluas que se repetem e sobrepõem. Já o PP é redundante porque faz uso de diversas regras para dar conta de um único fenômeno. O PNP é inovador porque se deixa levar pelas forças vivas das mudanças, evoluindo assim, com mais rapidez que o PP que refreia as tendências na tentativa de impedir que a língua seja desfigurada, sendo assim, conservador.

Apesar de parecer ter muitas diferenças, as semelhanças entre PP e PNP são ainda maiores.

linguística

logo que as aulas começaram, fiquei sabendo que teria prova oral de linguística. O medo, claro, tomou conta de tudo que tenho. Fiquei em pavor, assombrada. Tenho um grande desvio entre pensamento e fala. Sou daquelas que gaguejam, tremem, ficam vermelhas e babam! (ok, a parte do babar é mentira, mas quero piedade).

Não fiz a prova ainda. Na verdade ela estava marcada pra ontem, mas sortuda que sou, farei quinta feira (se eu for mais sortuda ainda, será feriado!)

Bem, isso aqui não é para falar dos meus medos, sorte, azar, babas e etc… quero falar do livro que fui “coagida” a ler: A Língua de Eulália. No entanto, antes de falar dele  eu teria que situar todo o contexto que me foi apresentado, até porque é um assunto novo e polêmico, por isso, o meu relato hoje será breve , porque tentarei mostrar pra vocês algumas coisitas que o estudo sobre o preconceito linguístico nos traz.

Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília (UnB) até 2009 no no Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas, escreveu em 1999 o livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, que o tornou conhecido. O livro é utilizado em diversos cursos de Letras e Pedagogia, estando perto de chegar em sua 50ª edição.

O que faz do livro ser tão interessante? “O livro denuncia a existência de uma série de mitos infundados que entram na composição do arraigado preconceito lingüístico que vigora na sociedade brasileira. Desmascarando um por um desses mitos, o autor mostra de que maneira a mídia e a multimídia, na contramão dos estudos científicos atuais sobre a linguagem, estão colaborando para perpetuar e aprofundar esse preconceito.” (http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=182) e eu diria que de forma um tanto quanto envolvente e simples, Bagno nos insere num mundo novo e alheio a maioria das pessoas.

A Língua de Eulália, uma novela Sociolinguísitca. Quando li isso, junto com a ‘obrigação’ de leitura, confesso que torci o nariz. Não é pra menos, certo?

Bem, Marcos Bagno nos mostra no livro que “nossa tradição educacional sempre negou a existência de uma pluralidade de normas lingüísticas dentro do universo da língua portuguesa; a própria escola não reconhece que a norma padrão culta é apenas uma das muitas variedades possíveis no uso do português e rejeita de forma intolerante qualquer manifestação lingüística diferente, tratando muitas vezes os alunos como “deficientes lingüísticos”. Argumenta que falar diferente não é falar errado e o que pode parecer erro no português não-padrão tem uma explicação lógica, científica (lingüística, histórica, sociológica, psicológica).” Tudo isso em forma de novela, com diálogos informativos, fazendo com que “a sociolingüística, seja tratada no livro, como ela deve ser: com seriedade, mas sem sisudez.”(http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=191)

Sendo assim, para me ajudar na prova e até mesmo fora dela, resumirei os assuntos e postarei aqui. Conforme o tempo, claro.

Enfim, mesmo que vá mal na prova, mesmo que babe, chore e desmaie na hora, sei que o que há no livro, o que li e guardei ficará em mim a ponto de não fazer mais cara feia quando alguém disser “para mim fazer”, até porque, tudo tem uma explicação. Mostrarei isso pra vocês. Mostrarei. Aguardem.

nascer no Cairo, ser fêmea de cupim – Rubem Braga

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?

O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.

Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.

Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não entristecer o homem.

Espero que uma velhice tranqüila – no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).

Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua”. Mas acho que isso é exagero.

Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.

Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.

Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da “Última Hora” ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de “O Globo?”.

No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.

Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!

Rio, novembro, 1951


Texto extraído do livro “Ai de Ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.

 

passando por aí

sempre tive uma certa dificuldade pra aprender novas línguas, não sei se atribuo isso a minha preguiça ou ao fato de não me esforçar tanto quanto uma atividade como essa [de aprender um novo idioma] exige. Bem, andando por alguns sites aí, encontrei esse e resolvi compartilhar aqui. Achei interessante o “aprender idiomas online grátis” (até porque pago R$ 182,00 por isso todo mês) . O busuu.com oferece vários idiomas , de uma forma agradável e simples. Vale a pena olhar e tentar organizar um tempinho pra melhor (ou aprender mesmo) aquele idioma que você sempre quis!

%d bloggers like this: