como plumas

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Fragmentos de mim, fragmentos de nada III

Me capturou. Eu, a presa que queria entregar-se, entregou-se; plena. No olho do corpo, no cu do mundo, encontramo-nos. No vazio, no vácuo não habitado, senti, sentimos-nos. Explodi. Explodimos-nos.

Com meu olhar virgem, alcancei-te.
Vi e deixei ver uma cena inédita. Gravada com a melhor posição da câmera colocada em minha cabeça e contracenada com a pessoa mais pungente que ousou atravessar-me.
Sente?
Eu sinto;
Sinto a química da proximidade das peles; a química que produziu, constituiu o meu pensamento e materializou a realidade, a nossa realidade; a sensação que dançou entre nossos corpos, abrandou qualquer ressalva e nos fez nós. Pura maciez expressa em cores.

Fui sua. Completa, finalmente, a sós. Em sincronia, em posição para executar a dança que só nós sabemos dançar, respiramos o mesmo compasso.
Economizei sentido, para sentir o Absoluto.
Economizei sentido, para encontrar o Inefável.

*

Inventei a verossimilhança que faltava, acreditei no (in)tangível que passava.
Por fim, em estado de pura letargia consciente, eu contemplei. Deixei contemplar.
Veja meu mundo através dos meus olhos, beibe, ele não é grande?
É tudo nosso.

E só poderia ser com você.

Uma música na rádio, hoje.

Nem preciso dizer que hoje o dia foi estranho, né? Porque foi isso que foi. Definitivamente.

Terminei a primeira temporada de The Borgias. Minha sobrinha nasceu. Ou melhor, a filha da minha cunhada nasceu [algumas pessoas entenderão]. Recebi uma declaração bonita e um pedido de casamento não aceitável. Faltei à aula, porque não estou preparada, ainda, para o final do ano letivo de 2015. Estou terrivelmente cansada e fatigada e enjoada de todo o lance que já recebi e ainda terei que receber e já desempenhei e ainda terei que desempenhar, na universidade. Não comi, já que, estranhamente, não estive com fome. Chorei o suficiente para abastecer um litoral artificial. Me perdi em ruas conhecidas. Não olhei nos olhos de quem normalmente olho, pelo simples fato de não saber lidar com a emoção, naquele momento. Fumei cigarros furtados. Fingi orgasmo, mas proporcionei um orgasmo. Corri, como o Forrest, atrás dos meus anos perdidos com um amor perdido. Lamentei. Me arrependi por isso. Fiz planos faraônicos para conseguir dar continuidade na minha vida romana. Pensei em nomes bonitos, para os meus filhos inexistentes e que nunca existirão. Procurei um ginecologista, que quisesse me olhar e me salvar da ardência desses dias, porém não encontrei. Passei frio, nesse dia quente. Meus pés congelaram e permaneceram imóveis, quando eu precisei fugir. Perdi o rebolado, no instante que eu percebi que a minha dança não agradava mais. Fiquei lubrificada, mas perdi o tesão. Percebi, assim, que sexo oral, não faz meu estilo. Percebi também que quero a luxúria dos personagens de Almodóvar, quero a violência dos filmes do Tarantino e toda os problemas psíquicos e dramáticos e existenciais do Lars. Saí do manicômio, da minha vida, para me deparar com o desespero familiar. Ouvi música, no som do carro, enquanto eu roía as minhas unhas roídas. Me encontrei na música, que, apesar de não tê-la ouvido anteriormente, resolveu me entender.

Vespas Mandarinas, Não sei o que fazer comigo.

Sobre a música: (Roberto Musso / versão: Chuck Hipolitho / Thadeu Meneghini) – Originalmente gravada por El Cuarteto De Nos (Ya No Sé Qué Hacer Conmigo) no disco Raro de 2006. Produzida por Rafael Ramos para o disco Animal Nacional – Deck 2013.

Belchior e eu

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Tenho uma relação meio estranha com músicas. Sempre quando alguém me pergunta: “o que você gosta de ouvir?”, eu já começo a babar, porque nunca sei o que responder. Não sei dizer o motivo disso acontecer, até porque música faz parte do meu dia, seja no trânsito, seja em minha casa ou na casa de um amigo, mesmo na trilha sonora de um filme eu tenho contato com o mundo musical, só não me ligo, como me ligo em um filme ou em um livro, por exemplo. Você acha estranho? Eu também acho, mas eu não deixo meu cigarro apagar em dias de tristezas, já que sempre é dia de ironia em meu coração. Reconhece esse trecho? É uma paráfrase do Belchior. Cantor que estou ouvindo agora, enquanto bebo um café e penso se volto a dormir ou não.

A chuva caí. Você ouviu? Por força desse destino, um tango argentino me vai bem melhor que o blues.

O que eu queria mesmo era estar na Argentina, hablando na língua dos argentinos, tomando um café argentino e comendo um alfajor pra rimar com Belchior. Pra rimar com minha vida. Comigo. Preciso de rimas, preciso de construções frasais com sujeito e predicado, para me complementar. Preciso me sentir completa. Preciso. Como? Não faço ideia. Só sei que preciso.

Já devo ter dito que gosto mesmo é de fluxo de consciência. Já disse, né? Para reforçar: gosto muito de fluxo de consciência. A dificuldade que tenho é que meus dedos não conseguem acompanhar o meu trem do pensamento (já assistiu divertida mente?). Ele passa piuipiui e não consigo escrever tudo o que ele traz, aqui. Isso acontece, porque minha mente funciona em vários ritmos, ritmos que não sei nomear ou seguir. Encontro uma placa. Paro. Continuo. E descambo serra à baixo.

É sempre assim.

Queria ser um escritor tipo Kafka. Acho que assim eu conquistaria as pessoas, né? O que me falta é um bom domínio das palavras. O poeta sempre consegue o que quer, não é? Eu sei que o Kafka não é poeta, ele está mais pra contista, mas quis falar de poeta, falei. Porque faço isso, tenho vontade, boto ela pra fora. Isso funciona comigo, funciona com você? Espero que sim. Só não coloco pra fora meus desejos, aí o mundo não resistiria, certo? Veja o Neruda, veja o Camões, eles sempre conquistaram as muchachas com um poeminha escrito, não sei, no guardanapo de papel, melecado de óleo da coxinha do bar. Sempre conquistaram. Até eu seria conquistada com todo esse amor. Camões abandonou a mulher amada, para salvar os lusíadas, naquele naufrágio, lembra? Então, aí depois disso, ele escreveu aquele soneto dedicado à pobre moça morta e ficou tudo perdoado. Tudo ficou lindo e todo mundo amou a amada morta (não salva pelo amante poeta), só pelo poema dedicado a ela. Justo isso? Eu não acho, mas quem sou eu na fila do pão pra questionar o poeta português e suas escolhas? Não sou ninguém mesmo.  Só eu acho Camões egoísta? Queria mesmo um cigarro. Sim, ele foi egoísta. Salvou o que lhe renderia sucesso e deixou uma vida UMA VIDA padecer no meio do mar. Por que? Porque ela não renderia dinheiro. O amor não vale nada. Desde dos séculos passados, o amor é um falido. Não enche a barriga de ninguém mesmo. Pra que nos serve? O amor é um sentimento de rico. Um adereço de luxo. Um adorno para pendurar no pescoço e dizer: eu amo. Ama? Pobre criança, comemore o dia 12, porque isso é o que você terá de felicidade. Amando ou não. Ouvindo músicas ou não.

Karen, Kelen ou você mesmo.

Karen (ou kelen, ou você mesmo) costuma falar sozinha, além disso, sonha sozinha também. Ela não sabe dançar, mas às vezes finge bem.  Ela dança sozinha, como sonha e fala. Um dia, dançava APESAR DE VOCÊ AMANHÃ HÁ DE SERRRRRR OUTRO DIA e um moço a cutucou “- moça você está bem? – sim… – mas você está dançando… sozinha… – e você não está rindo disso. Ria.” Gosta de música indie e não entende muito bem o que isso quer dizer, se é que quer dizer algo. Não escreve muito, apesar de ter um calo no dedo. Não lê muito, apesar de usar óculos. Nada nunca é suficiente, na verdade. Não entende de Godard, não faz medicina e não fala alemão. Foi dançarina de balcão, recepcionista de posto de saúde, frentista, entregadora de jornal e vendedora de calçados. Entende de marca de calçados e sabe reconhecer e diferenciar um all star autêntico. Para ela, todos os homens usariam all star. Limpo ou sujo. All Star. E mulheres estariam sempre de havaianas, ou moleca de vó. Por que não? Ela nunca soube usar salto mesmo. Gosta mesmo é de coturnos para não parecer feminina. Ela feminina? Nem combina! Desastrada e derruba tudo mesmo. Tem como ser delicada? Não, não tem. Confunde nomes: Juracir pode ser Jurandir, Jundiaí, Jura, Juarez. Marçal pode ser Marcelo, Marciel, Macio, Maurício… E, ainda, tem o R retrocesso que faz com que ela não consiga falar A-M-O-R-T-E-C-E-D-O-R.

Não é “intelectual”. Não gosta (ou não sabe se gosta) do Bandeira, do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. Não sabe falar sobre o Planalto Central, nem de magia ou meditação. Tem é medo de espíritos. Faz duas semanas que dorme com os pais porque tem medo do vô que morreu. Ele vem pedir sua bengala pra ela. Mas como entregar, meu deus? Já está tudo encaixotado! Só sabe de uma coisa, a casa é assombrada mesmo. Só o quarto dos pais que não. É uma pseudo-suícida. Daquelas que se identificam com o Harold do “ensina-me a viver” e detesta a Maude por “ensinar que a vida é legal”. Mas como diz Woody, “e se for verdade que Deus não existe e só se vive uma vez? Não quer viver essa experiência? Não é tão chato assim…” e talvez, apesar do talvez ser uma linha muito tênue pra se apoiar, talvez ele tenha razão. Karen ama as palavras, não frases, mas as palavras e seus significados. Desde sempre leu dicionários. Nunca decorou todas as palavras e suas atribuições, mas sempre achou divertido saber que existem palavras pra tudo o que quer dizer. Tudo! Isso não é mágico?

Mágico é seu dente do ciso nascendo.

A menina gosta de participar de eventos acadêmicos pra ganhar bolsas, por isso, sempre está com bolsas feias. Usa meias roxas e a maioria das pessoas olham ela passar, não por ser bonita, longe disso, mas por ser estranha e ter um nariz torto. Um nariz italiano, mas torto.

É vazia – so empty. Gosta de expressões inglesas. Ama o espanhol e não entende coisa nenhuma do francês. Só sabe o nome do rio que passa por Paris. Karen (ou kelen, ou você mesmo) tem mãos pequenas. “[…] ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas […]”

Não entende de amor, nunca ninguém ensinou nada sobre isso pra ela. Acha que amor, o bom amor mesmo, é soltar puns na cama. Antes, a ausência de sentimento a incomodava. Hoje, ela aprendeu a conviver com a frieza (ou falta de ternura) que recebe. É comum, ela pensa. Somos todos apenas pedaços de carne pendurados. Somos bocas, somos bundas, somos coxas, não é? Não? Pensando assim, Cheiro do Ralo faz muito sentido. Todos os homens são apaixonados por pedaços, como no filme, uma bunda. Ainda pensando assim, Onorato – ou Alecrim, que frita a bunda da mulher pra comer, em Estômago, faz MUITO sentido, não é? O que Karen é? O que são todos? Tem tanta palavra no dicionário, mas quem descreve isso? Ninguém.

Nobody. Did you try? Did you want to try? No? You can’t.

A garota ouviu ontem, que para se apaixonar, para que alguém se envolva de verdade, a sério, a outra pessoa tem que valer a pena. Não sabe o que acha disso, só sabe que não concorda. A vida tende a ser irônica, quase sempre, pelo menos. E que a pessoa que vale a pena, nem sempre é a que interessa. Quem aguentaria passar tempo perto de alguém tão bom e perfeito? E os puns na cama, onde ficam? As métricas nem sempre são interessantes. Mas ok. Levando em conta que todos esperam a pessoa que “valha a pena”, quem vai achar que ela vale? Quem vai acreditar? O que analisam? O que é levado em consideração? O que vale a pena pra um, nem sempre vale pra todo mundo. Se todos se apaixonassem pelo menino tímido da biblioteca, que lê superinteressante e usa all star, as coisas estariam difíceis pra todas as Karen. Ou Kelen. Ou você mesmo. É melhor pensar que tudo é um puto dum caledoscópio, que gira, gira, gira… E que é todo mundo engolido por ele. Pelas sombras, pelas pessoas, todos engolidos por essa… roda viva que carrega o destino pra lá.

 Karen não é ninguém.

É só uma personagem…

Ou não, mas quem sabe?

Adeus, Jurandir, sua cidade é longe demais pra eu achar que você valha a pena..

Bobeirinhas

Compras.

Hoje estava pensando, ultimamente só tenho me preocupado com dinheiro. Tenho trabalhado feito louca e economizado dinheiro feito louca. Está certo que tenho gastado dinheiro com festas mais que o normal e mais do que gostaria, mas foram todas por boa causa.

O que quero dizer é que tenho realmente me importado com isso, não que esteja faltando, mas ultimamente tenho me preocupado com o futuro e o que vai ser de mim, portanto, sabendo que o sistema que estamos inseridos, querendo ou não, faz com que sejamos escravos do dinheiro, preciso dele (como qualquer pessoa, imagino) pra me manter segura num futuro (não tão próximo) que venho planejando.

Com isso, tenho me privado de muitas compras e hoje me dei conta do quanto isso tem me feito falta. Agora que estou de férias, venho percebendo que nem a minha escova de dentes me agrada mais, então, vamos a lista do que preciso pro futuro (o mais próximo possível)

  • um coturno (ou um slippers, ou os dois);
  • livros (comprei alguns hoje, mas quero ir ao sebo comprar mais – de leitura por prazer mesmo, não quero nada teórico);
  • papéis laminados e contact;
  • um dicionário de francês (tentarei encontrar no sebo);
  • renda preta (pra enfeitar minha sapatilha moleca);
  • uma escova de dentes extra macia;
  • cera para depilação;
  • creme hidratante para o rosto (pode ser filtro solar que vi no O Boticário);
O que preciso fazer com URGÊNCIA:
  • as unhas;
  • a sobrancelha;
  • limpeza nos dentes.
O que preciso para um futuro não tão próximo:
  • Uma passagem para Floripa.

Notem que as listas NÃO estão completas, o problema é que minha chefe está me olhando torto e assim não consigo me concentrar. Ok, mas eu volto com mais consumismo pro lado de vocês.

desabafo da vez.

Hoje estava notando, todos que tem máquina fotográfica ou o instagram agora são fotógrafos e, claro, amam e entendem essa arte.
Escrevem uma droga dum poema e já são escritores literários, conhecedores dos clássicos e críticos e o escambau.
Assistiram um filme do Tarantino e um do Woody Allen e conhecem The Dreamers, pronto, já estão fazendo discursos sobre o que é bom e o que não é na sétima arte.
Van Gogh? Ah, fácil de ser superado.
Quanto mais desconhecida a banda musical, melhor é, claro! É lindo dizer o nome e deixar as pessoas com cara de: “WTF? De onde saiu isso?”
Machado de Assis? Ah, caralho, já leram todos os livros dele e, assim, fácil fácil, sabem narrativa decoradinha! Mas claro, é preciso contar isso pra todos pra pagar de pseudo-bom.

Sabe o que acho? Devo ser muito idiota mesmo, mas muito, ou as pessoas estão impressionáveis demais. Vão se imortalizar gente, vão lá, ser o Mozart da vez ou o novo Godard. É fácil, basta não ter vergonha na cara e fazer as pessoas engolirem toda essa merda. Sejam os sofistas da vez e pendurem os seus livros Dostoievskiano no pescoço e encham a boca pra dizer: “caralho, eu li, entendi e sou lindo, muah!*:”

Me desculpem, mas conhecimento é bom? Sim, é. É essencial, mas humildade, ah… a humildade, isso sim é uma virtude.

E aprendam, gente, ser simples que é complexo.

sumiço

Significado de Sumiço

s.m. Pop. Desaparecimento, descaminho.
Bras. Pop. Tomar chá de sumiço, desaparecer.
Dar sumiço, desaparecer com, fazer desaparecer.

sei que sumi.

tomei chá de sumiço.

desapareci.

Por quê?

Não sei.

Muito o que falar,

pouco que falar.

Declarar.

Estou de volta,

tavez, dessa vez,

pra ficar.

um filme – Bande à part (1964)

Ontem estava em Sorocaba e aconteceu uma cena muito parecida com essa, bem, talvez nada parecida, mas aconteceu que precisava correr pra pegar o ônibus e no meio da correria lembrei do filme. Kiko e eu fazendo parte de uma cena do filme de Godard. Ou pelo menos pareceu.

sou porque tu és

e eu tento, eu tento não pensar em você mas confesso que sua imagem, seu cabelo, suas expressões, músicas, apelos, pairam em mim. Eu canto, rio e tento esquecer, mas em meu silêncio, em minha companhia solitária, são suas sombras que me aparecem. Isso me assombra.

Não quero superar você, não quero seguir em frente e deixar o que foi pra trás. Quero aprender a conviver com os sentidos que afloraram em mim ao te conhecer. Te superar seria admitir minha indiferença ou até mesmo o esquecimento e não pretendo deixar isso acontecer. Quero suas lembranças e sensações. Quero continuar preenchendo e sendo completa por você. Não acredito em nós como já acreditei. Não acredito, como nunca acreditei, em finais felizes e possibilidades alcançáveis. É o que é. Mas quero o doce pós amargo que conheci. Não vou abrir mão.

Hoje abraçei um antigo namoradinho e pensei em como seria caso fosse você. Sei que a procura em outros braços, em outros beijos e calores, vai acontecer. É normal, é uma questão fisiológica. De querer estar, de ser. Diria que até necessária. E não me culpo por isso e não te culpo também, no entanto, a curiosidade de saber seu gosto estará presente. Saiba disso.

Contudo, o que me resta agora é dançar um tango argentino. É o que resta.

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